sábado, 24 de outubro de 2009

O Pau Brasil (*)


Por: Larissa Barcellos


Pois bem, meus caros leitores, faço aqui uma pausa para refletir acerca de um problema que me foi colocado há exatamente um ano, quando eu estava lendo o livro “Antropólogos e a Antropologia”, de Adam Kuper. Nesta mesma época, assisti ao Grupo de Trabalho coordenado por Marcio Goldman e Eduardo Vargas na reunião anual da ANPOCS, sobre a Antropologia Pós-Social. Compareci, também, à palestra proferida por Eduardo Viveiros de Castro na USP, sobre Claude Lévi-Strauss. Estes dois últimos eventos representam, para mim, uma entrada mais efetiva na Antropologia.


O Problema


O ultimo capitulo do livro de Kuper tem como epígrafe a seguinte questão, levantada por Leach:

“Afinal, em nome dos céus, o que nós estamos tentando descobrir?”

Confesso que fiquei contente ao ler esta frase, já que acreditava que crises deste tipo eram usuais apenas nas mentes confusas dos estudantes de graduação.

A mesma pergunta reapareceu para mim alguns meses depois, em um texto de Marcio Goldman (que citava Kuper), com comentários que, na época, eu pouco entendi.


A Piada


Quando eu estava na escola, os meus amigos e eu gostávamos de interromper as aulas para contar aos professores uma piada infame, pelo simples prazer da interrupção, e na tentativa de quebrar o tédio.

Ela era assim:

Aluno: Como os portugueses descobriram o Pau Brasil?

Professor: Observando a mata brasileira.

Aluno: Não! Foi levantando a tanguinha dos índios.

Na primeira vez que ouvi esta piada eu não entendi o seu significado, por não ter percebido o trocadilho com a palavra “descobrir”. Foi somente alguns anos depois, ao contá-la a uma amiga, que pude compreender o que ela queria dizer.


A descoberta


O ponto em comum mais evidente entre estes dois enunciados é o uso da palavra “descobrir” – e eu me apoio aqui, de maneira in-conseqüente, na tradução para o português do livro de Kuper.

Na fala de Leach, a palavra tem o mesmo significado acionado pelo professor em sua resposta ao aluno. Este, entretanto, subverte o significado do verbo, dando graça à piada, e também demonstrando tanto as armadilhas interessantes da fala brasileira, quanto o contraste entre as maneiras usuais de se pensar através da linguagem, e suas alternativas possíveis e implícitas.

Proponho que façamos o mesmo com a questão posta por Leach e reproduzida tanto por Kuper quanto por Goldman, mas também por muitos dos meus colegas de curso. Acionemos, como o aluno, o significado outro da palavra “descobrir”, a partir da tradução da fala do antropólogo para o português. A questão que coloco aqui é: e se, ao invés de pensarmos como o professor, visualizarmos o seu significado à maneira do aluno?

Proponho, também, que pensemos o antropólogo enquanto etnógrafo – e Leach o era – interessado no contato com outras culturas e formas de viver. Poderíamos aproximá-lo, então, dos portugueses, os homens da ação (na piada), e não do discurso (no contar a piada), os homens da experiência (o levantar a tanga e ver o que está por baixo) que leva à linguagem (a historinha contada pelo aluno), e não da linguagem (piada) que leva à experiência (o imaginar a situação ou rir da piada) (1). O que, então, poderíamos estar tentando descobrir? Esta é uma ação particular e deve ser situada. Oras, estamos falando aqui do Brasil – e outro ponto em comum entre a pergunta e a piada é colocado: ambos foram enunciados em português e por/para os falantes desta língua – e isto, creio, basta por enquanto para que possamos situá-la no Brasil.

Leach era um antropólogo das ditas “sociedades primitivas”, sendo um dos responsáveis pela incorporação do pensamento de Lévi-Strauss na Inglaterra. Aproximo-o (ainda de maneira in-conseqüente) a Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro que também estuda as “sociedade primitivas” e é um dos responsáveis pela re-incorporação do pensamento de Lévi-Strauss no Brasil.

Podemos aproximar também a história do aluno à de Viveiros de Castro. Na primeira, os portugueses, ao chegarem até os índios, descobriram-nos de suas roupas (2) e perceberam o corpo de um “outro” ser humano, diferente dos seus. Eduardo Viveiros de Castro, por sua vez, foi à Amazônia e, ao se livrar de sua forma de ver os índios, das categorias que moldavam o seu pensamento, buscou ver aquelas a que os próprios índios se colocavam, percebendo uma forma de pensamento “outra”, diferente da sua.

Viveiros de Castro diz que não está “preocupado com a questão indígena, mas com as questões indígenas no plural”, e, assim, pode desnudar o pensamento ameríndio, descobrindo-o dos olhos etnocêntricos (muito presentes na antropologia) e da necessidade – sempre cientifica, racional e profissional – de categorizar, de acordo com a nossa linguagem, aquilo que apreendemos da cultura (e conduta) alheia. O autor está preocupado com as questões que os índios se colocam, a fim de alterar o pensamento Ocidental, confrontando-o com questões outras que, por serem “humanas” (somos todos seres humanos), são virtuais para todos os povos – na tentativa de um contato com um “outro” sempre possível, mesmo que ausente de maneira efetiva.



Traçando mais relações


Podemos dizer que o aluno está em desvantagem (no que diz respeito a relações de poder) quanto ao professor, já que, aos olhos da sua sociedade, além de estar passando pela fase da adolescência, não foi ainda completamente socializado. Ele é, assim, um selvagem. Entretanto, e por este motivo, ele pode transitar pelos diferentes sentidos da palavra “descobrir”, latentes ou não. Ele brinca e se aproveita do fato, causando reações no professor.

Os índios, vistos como selvagens pela cultura do antropólogo, são subordinados, em termos de poder, pela mesma, mas despertam para o antropólogo novas questões, latentes ou não em sua cultura, desencadeando nele um novo tipo de pensamento.

Além disso, a questão posta por Leach – que foi marginalizado pela academia britânica, sendo considerado um “enfant terrible” pelo meio antropológico -, sendo muito "boa para pensar", ajudou tanto Kuper quanto Goldman a desenvolverem teorias e enunciados.

Os meus colegas e eu, por nosso turno, confusos e em crises, nos animamos com a questão de Leach, e em Goldman e Kuper fomos buscar uma resposta para ela, já que parece um tanto desmotivador estudar algo que não se sabe bem o que é.



Eduardo Viveiros de Castro, por Larissa B.

Conclusão


Refazendo o trajeto que me levou a compreender a piada, nos anos de minha entrada na adolescência, percebi que, talvez, o que faltava para que eu entendesse melhor a questão de Leach, a antropologia de Eduardo Viveiros de Castro e, principalmente, o texto de Marcio Goldman, quando me iniciava na carreira das Ciências Sociais, era inverter os significados explícitos do enunciado de Leach, trazendo à tona os seus significados latentes. – Afinal de contas, eu me colocara o mesmo dilema alguns anos antes.

A solução encontrada (a de levantar a tanguinha do pensamento indígena, para que fossem postas à vista as suas questões) poderia ser um sinal de motivação nas mentes (sempre) entediadas dos alunos, provocando, senão o riso divertido e infantil, inquietações interessantes e interativas, tanto em questões quanto em experiências que são, no mínimo, "boas para pensar".

E não é tudo. Se os portugueses da história contada pelo aluno chegaram ao Pau Brasil ao levantar a tanguinha dos índios, Eduardo Viveiros de Castro fez, de certa forma, a operação inversa: foi, em parte, ao entrar em contato com o Pau Brasil de Oswald de Andrade que ele pôde ver a tanguinha do pensamento ameríndio.

Com isto, concluo a minha reflexão – confusa, irresponsável e cheia de sacações meramente intuitivas. E foi na busca de acabar com o tédio que eu, uma jovem estudante de ciências sociais – academicamente não domesticada, selvagem portanto –, arrisquei ser inconseqüente e brinquei com os termos, seus significados e suas relações.



Caricatura de M. Goldman feita no Colóquio Pierre Clastres (Sesc/SP - 2009)






Notas:

(*) Este texto, escrito em uma noite de insônia na cidade de Belo Horizonte, foi idealizado durante a leitura massante do chatíssimo livro de Stuart Hall, "Identidade Cultural na Pós-Modernidade". Um subtítulo possível para ele, porém muito limitador, seria: "Notas sobre o tédio".

1 - Estou ciente de que o ato de contar a piada é também uma experiência e que o ato de levantar a tanga é também representado em termos de linguagem.

2 - Provavelmente esta é a maneira etnocêntrica do aluno de imaginar os fatos.

5 comentários:

Iansã disse...

Boas "sacações", boas "intuições". Mas... afinal, o que é mesmo que nós estamos tentando descorbri? ;-)

jholland disse...

Hahaha...a caricatura do Goldman e a do EVC ficaram muito boas neste contexto !!!
Bjs

guilherme disse...

Parafraseando o bigodudo alemão, é necessário uma criança para dizer que o índio está nú, e levantar a tanga dos olhos portugueses. Salve Larissa, EVC, e o Saci Pererê!!!

lalb disse...

Ouvi esssa semana uma piada muito parecida, mas mais boba.
Era mais ou menos assim:
- Por que os portugueses nao descobriram a America?
- Porque ela nunca foi coberta.

lalb disse...

estou em provas, mas depois coloco as notas de rodapé com observações, etc.