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quarta-feira, 4 de maio de 2011

« O cinema de Guy Debord » por Giorgio Agamben




O meu intuito é o de aqui definir certos aspectos da poética, ou melhor, da técnica composicional de Guy Debord no domínio do cinema. Evito voluntariamente a expressão “obra cinematográfica”, nominação que ele próprio rejeitou e que se pudesse utilizar a seu propósito. “Considerando a história da minha vida, escreveu ele em In girum imus nocte et consumimur igni [1978], não podia fazer aquilo a que se chama uma obra cinematográfica”. De resto, não apenas penso que o conceito de obra não é útil no caso de Debord, como sobretudo me pergunto se hoje, cada vez que se quer analisar aquilo a que se chama de obra, quer seja literária, cinematográfica ou outra, não seria necessário colocar em questão o seu próprio estatuto. Em vez de interrogar a obra enquanto tal, penso que é preciso perguntar que relação existe entre o que se podia fazer e o que foi feito. Uma vez, como estava tentado (e ainda estou) a considerá-lo um filósofo, Debord disse-me: “Não sou um filósofo, sou um estrategista”. Ele viu o seu tempo como uma guerra incessante em que toda a sua vida estava empenhada numa estratégia. É por isso que penso ser preciso interrogar-nos sobre o sentido do cinema nessa estratégia. Porquê o cinema e não, por exemplo, a poesia, como o foi no caso de Isou, que tinha sido tão importante para os situacionistas, ou porquê não a pintura, como para um dos seus amigos, Asger Jorn?

Creio que isso se deve à ligação estreita que existe entre o cinema e a história. De onde vem essa ligação, e de que história se trata?

Tal deve-se à função específica da imagem e ao seu carácter eminentemente histórico. É preciso especificar aqui alguns detalhes importantes. O homem é o único animal que se interessa às imagens enquanto tais. Os animais interessam-se bastante pelas imagens, mas na medida em que são enganados por elas. Podemos mostrar a um peixe a imagem de uma fêmea, ele irá ejectar o seu esperma; ou mostrar a um pássaro a imagem de outro pássaro para o capturar, e ele será enganado. Mas quando o animal se dá conta que se trata de uma imagem, desinteressa-se totalmente. Ora, o homem é um animal que se interessa pelas imagens uma vez que as tenha reconhecido enquanto tais. É por isso que se interessa pela pintura e vai ao cinema. Uma definição do homem, do nosso ponto de vista específico, poderia ser que o homem é o animal que vai ao cinema. Ele interessa-se pelas imagens uma vez que tenha reconhecido que não se tratam de seres verdadeiros. Um outro aspecto é que, como mostrou Gilles Deleuze, a imagem no cinema (e não apenas no cinema, mas nos Tempos modernos em geral) já não é algo de imóvel, já não é um arquétipo, quer dizer, algo fora da história: é um corte ele próprio móvel, uma imagem-movimento, carregada enquanto tal de uma tensão dinâmica. É essa carga dinâmica que se vê muito bem na fotos de Marey e de Muybridge que estão na origem do cinema, imagens carregadas de movimento. É uma carga deste gênero que via Benjamin naquilo a que chamava uma imagem dialéctica, que era para ele o próprio elemento da experiência histórica. A experiência histórica faz-se pela imagem, e as imagens estão elas próprias carregadas de história. Poderíamos considerar a nossa relação à pintura sob este aspecto: não se trata de imagens imóveis, mas antes de fotogramas carregados de movimento que provêem de um filme que nos falta. Era preciso restituí-las a esse filme (vocês terão reconhecido o projeto de Aby Warburg).

Mas de que história se trata? É preciso esclarecer que não se trata aqui de uma história cronológica, mas a bem dizer de uma história messiânica. A história messiânica define-se antes de mais nada por dois caracteres. É uma história da Salvação, é preciso salvar alguma coisa. E é uma história última, é uma história escatológica, em que alguma coisa deve ser consumada, julgada, deve passar-se aqui, mas num tempo outro, deve, portanto, subtrair-se à cronologia, sem sair para um exterior. É essa a razão pela qual a história messiânica é incalculável. Na tradição judaica há toda uma ironia do cálculo, os rabinos faziam cálculos muito complicados para prever o dia da chegada do Messias, mas não paravam de repetir que se tratavam de cálculos proibidos, pois a chegada do Messias é incalculável. Mas, ao mesmo tempo, cada momento histórico é aquele da sua chegada, o Messias é sempre já chegado, está sempre já aí. Cada momento, cada imagem está carregada de história, porque ela é a pequena porta pela qual o Messias entra. É esta situação messiânica do cinema que Debord partilha com o Godard das Histoire(s) du cinéma. Apesar da sua antiga rivalidade – Debord disse em 68 de Godard que ele era o mais tolo de todos os Suíços pró-chineses –, Godard reencontrou o mesmo paradigma que Debord tinha sido o primeiro a traçar. Qual é esse paradigma, qual é essa técnica de composição? Serge Daney, acerca das Histoire(s) de Godard, explicou que era a montagem: “O cinema procurava uma coisa, a montagem, e era dessa coisa que o homem do século XX tinha uma necessidade terrível”. É o que mostra Godard nas Histoire(s) du cinéma.



O carácter mais próprio do cinema é a montagem. Mas o que é a montagem, ou antes, quais são as condições de possibilidade da montagem? Em filosofia, depois de Kant, chama-se às condições de possibilidade de alguma coisa os transcendentais. Quais são então os transcendentais da montagem? Existem duas condições transcendentais da montagem, a repetição e a paragem. Isto, Debord não o inventou, mas fê-lo vir à luz, exibiu estes transcendentais enquanto tais. E Godard fará o mesmo nas suas Histoire(s). Já não temos necessidade de filmar, basta-nos repetir e parar. Esta é uma nova forma epocal por relação à história do cinema. Este fenômeno espantou-me bastante em Locarno em 1995. A técnica composicional não mudou, é ainda a montagem, mas agora a montagem passa para primeiro plano, e mostra-se enquanto tal. É por isto que se pode considerar que o cinema entra numa zona de indiferença em que todos os gêneros tendem a coincidir; o documentário e a narração, a realidade e a ficção. Faz-se cinema a partir das imagens do cinema.

Mas voltemos às condições de possibilidade do cinema, a repetição e a paragem. O que é uma repetição? Há na Modernidade quatro grandes pensadores da repetição: Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Gilles Deleuze. Os quatro mostraram-nos que a repetição não é o retorno do idêntico, do mesmo enquanto tal que retorna. A força e a graça da repetição, a novidade que traz, é o retorno em possibilidade daquilo que foi. A repetição restitui a possibilidade daquilo que foi, torna-o de novo possível. Repetir uma coisa é torná-la de novo possível. É aí que reside a proximidade entre a repetição e a memória. Dado que a memória não pode também ela devolver-nos tal qual aquilo que foi. Seria o inferno. A memória restitui ao passado a sua possibilidade. É o sentido desta experiência teológica que Benjamin via na memória, quando dizia que a recordação faz do inacabado um acabado, e do acabado um inacabado. A memória é, por assim dizer, o órgão de modalização do real, aquilo que pode transformar o real em possível e o possível em real. Ora, se pensarmos nisso, trata-se também da definição do cinema. Não faz o cinema sempre isso, transformar o real em possível, e o possível em real? Podemos definir o já visto como o fato de “perceber algo do presente como se já tivesse sido”, e o inverso, o fato de perceber como presente algo que já foi. O cinema tem lugar nessa zona de indiferença. Compreendemos então porque o trabalho com imagens pode ter uma tal importância histórica e messiânica, pois é uma forma de projetar a potência e a possibilidade em direção ao que é por definição impossível, em direção ao passado. O cinema faz então o contrário do que fazem as mídias. As mídias dão-nos sempre o fato, o que foi, sem a sua possibilidade, sem a sua potência, dão-nos portanto um fato sobre o qual somos impotentes. As mídias adoram o cidadão indignado mas impotente. É o mesmo objetivo do telejornal. É a má memória, a que produz o homem do ressentimento.

Ao colocar a repetição no centro da sua técnica composicional, Debord torna de novo possível aquilo que nos mostra, ou melhor, abre uma zona de indecidibilidade entre o real e o possível. Quando mostra um trecho do telejornal, a força da repetição é tal que deixa de ser um fato consumado, e volta a ser, por assim dizer, possível. Nos perguntamos: “Como isto foi possível?” – primeira reação –, mas ao mesmo tempo compreendemos que sim, tudo é possível, mesmo o horror que nos fazem ver. Hannah Arendt definiu um dia a experiência final dos campos como o princípio do “tudo é possível”. É também nesse sentido extremo que a repetição restitui a possibilidade.



O segundo elemento, a segunda condição transcendental do cinema é a paragem. É o poder de interromper, a “interrupção revolucionária” de que falava Benjamin. É muito importante no cinema, mas, mais uma vez, não apenas no cinema. É o que faz a diferença entre o cinema e a narração, a prosa narrativa, com a qual se tem tendência a comparar o cinema. A paragem mostra-nos, pelo contrário, que o cinema está muito mais próximo da poesia que da prosa. Os teóricos da literatura sempre tiveram bastante dificuldades em definir a diferença entre a prosa e a poesia. Muitos elementos que caracterizam a poesia podem dar-se na prosa (que, por exemplo, do ponto de vista do número de sílabas, pode conter versos). A única coisa que se pode fazer na poesia e não na prosa são os enjambements e as cesuras. O poeta pode opor um limite sonoro, métrico, a um limite sintático. Não se trata apenas de uma pausa, mas de uma não-coincidência, uma disjunção entre o som e o sentido. Por isso Valéry pôde uma vez dar ao poema esta definição tão bela: “O poema, uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”. É também por isso que Hölderlin pôde dizer que a cesura, ao parar o ritmo e o desenrolar das palavras e das representações, faz aparecer a palavra e a representação enquanto tais. Parar a palavra é subtraí-la do fluxo do sentido para a exibir enquanto tal. Poderíamos dizer a mesma coisa da paragem tal como Debord a pratica, enquanto constitutiva de uma condição transcendental da montagem. Poderíamos retomar a definição de Valéry e dizer do cinema, pelo menos de um certo cinema, que é uma hesitação prolongada entre a imagem e o sentido. Não se trata de uma paragem no sentido de uma pausa, cronológica, mas antes de uma potência de paragem que trabalha a própria imagem, que a subtrai do poder narrativo para a expor enquanto tal. É neste sentido que Debord nos seus filmes e Godard nas suas Histoire(s) trabalham com essa potência da paragem.

Estas duas condições transcendentais não podem nunca estar separadas, elas formam un sistema conjuntamente. No último filme de Debord há um texto muito importante logo no início: “Mostrei que o cinema se pode reduzir à esta tela branca, e à esta tela preta”. O que Debord entende por isto é precisamente a repetição e a paragem, indissolúveis enquanto condições transcendentais da montagem. O preto e o branco, o fundo em que as imagens estão tão presentes que nem as conseguimos ver, e o vazio em que não há imagem alguma. Existem aqui analogias com o trabalho teórico de Debord. Se tomarmos, por exemplo, o conceito de “situação construída” que deu nome ao situacionismo, uma situação é uma zona de indecidibilidade, de indiferença entre uma unicidade e uma repetição. Quando Debord diz que é preciso construir situações trata-se sempre de algo que se pode repetir e também algo de único.

Debord o menciona ainda no final de In girum imus nocte et consumimur igni, quando, em vez da tradicional palavra “Fim”, aparece a frase: “A retomar do início”. Há aqui igualmente o princípio que trabalha no próprio título do filme, que é um palíndromo, uma frase que se volta nela mesma. Neste sentido, há uma palindromia essencial no cinema de Debord.

Juntas, a repetição e a paragem realizam a tarefa messiânica do cinema de que falávamos. Esta tarefa tem essencialmente a ver com a criação. Mas não é uma nova criação depois da primeira. Não se deve considerar o trabalho do artista unicamente em termos de criação: pelo contrário, no fundo de cada ato de criação há um ato de des-criação. Deleuze disse um dia, acerca do cinema, que cada ato de criação é sempre um ato de resistência [O Ato de Criação por Gilles Deleuze]. Mas o que significa resistir? É antes de mais nada ter a força de des-criar o que existe, des-criar o real, ser mais forte que o fato que aí está. Todo ato de criação é também um ato de pensamento, e um ato de pensamento é um ato criativo, pois o pensamento define-se antes de tudo pela sua capacidade de des-criar o real.

Se esta é a tarefa do cinema, o que é uma imagem que foi assim trabalhada pelas potências da repetição e da paragem? O que muda no estatuto da imagem? É preciso repensar aqui toda a nossa concepção tradicional da expressão. A concepção corrente da expressão é dominada pelo modelo hegeliano segundo o qual toda a expressão se realiza numa mídia quer seja uma imagem, uma palavra ou uma cor, que no fim deve desaparecer na expressão acabada. O ato expressivo é consumado quando o meio, a mídia, já não é percebida enquanto tal. É preciso que a mídia desapareça no que nos dá a ver, no absoluto em que se mostra, que nele resplandece. Pelo contrário, a imagem que foi trabalhada pela repetição e pela paragem é um meio, uma mídia que não desaparece no que nos dá a ver. É o que eu chamaria de “meio puro”, que se mostra enquanto tal. A imagem dá-se a ver ela própria em vez de desaparecer no que nos dá a ver. Os historiadores do cinema assinalaram como uma novidade desconcertante o fato de que, em Monika de Bergman (1952), a protagonista, Harriet Andersson, fixa de repente o seu olhar na objetiva da câmara. O próprio Bergman escreveu a propósito desta sequência: “Aqui e pela primeira vez na história do cinema estabelece-se de súbito um contato direto com o espectador”. Desde então, a fotografia e a publicidade banalizaram este procedimento. Estamos habituados ao olhar da estrela de pornô que, enquanto faz aquilo que tem a fazer, olha fixamente a câmara, mostrando assim que se interessa mais pelos espectadores do que pelo seu partner.

Desde os seus primeiros filmes e de forma cada vez mais clara, Debord mostra-nos a imagem enquanto tal, isto é, e segundo um dos princípios teóricos fundamentais de A sociedade do Espetáculo, enquanto zona de indecidibilidade entre o verdadeiro e o falso. Mas existem duas maneiras de mostrar uma imagem. A imagem exposta enquanto tal já não é imagem de nada, é ela própria sem imagem. A única coisa da qual não se pode fazer imagem é, por assim dizer, ser imagem da imagem. O signo pode significar tudo, exceto o fato de estar a significar. Wittgenstein dizia que o que não se pode significar, ou dizer num discurso, o que é de alguma forma indizível, isso mostra-se no discurso. Existem duas formas de mostrar essa relação com o “sem-imagem”, duas formas de fazer ver o que já não há nada para ver. Uma é o pornô e a publicidade, que fazem como se houvesse sempre o que ver, ainda e sempre imagens por detrás das imagens; a outra a que, nessa imagem exposta enquanto imagem, deixa aparecer esse “sem-imagem”, o que é, como dizia Benjamin, o refúgio de toda a imagem. É nesta diferença que se articulam toda a ética e toda a política do cinema.

(Giorgio Agamben, «Le cinéma de Guy Debord» (1995), in Image et mémoire, Hoëbeke, 1998, pp. 65-76.)


Extraído de: Blog Intermídias

quarta-feira, 30 de março de 2011

Identidade Convulsiva




“O homem não deveria pensar-se como revolucionário apenas no plano social, mas acreditar e, sobretudo, sê-lo no plano físico, fisiológico, anatômico, funcional, circulatório, respiratório, dinâmico, atômico e elétrico”

(Antonin Artaud)




Extraído de : http://diacrianos.blogspot.com/2011/03/identidade-convulsiva.html

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Na Natureza Selvagem




There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more,
From these our interviews, in which I steal
From all I may be, or have been before,
To mingle with the Universe, and feel
What I can ne'er express, yet cannot all conceal.



Tradução:


Há nas matas cerradas um prazer
Há nas encostas solitárias um arrebatamento,
Há sociedade, onde ninguém pode intrometer,
Pelo mar profundo, e música em seu lamento:
Eu não amo menos ao Homem, mas à Natureza mais,
Dessas nossas entrevistas, nas quais capturo
De tudo que eu possa ser, ou tenha sido tempos atrás,
Para me misturar ao Universo, e sentir puro
O que nunca posso expressar, ainda que não possa esconder.


Lord Byron (1788 - 1824), poeta britânico.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Captain! My Captain!



O Captain! My Captain!



1



O C
APTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart! 5
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.


2



O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills; 10
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck, 15
You’ve fallen cold and dead.


3



My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won; 20
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.



(Walt Whitman)



Extraído de: http://www.bartleby.com/142/193.html

quinta-feira, 4 de março de 2010

O Caos vive


Sadomasoquismo Intelectual é o Fascismo dos Anos 1980: A Vanguarda Come Merda e Gosta


Comunicados da Associação Pró-Anarquia Ontológica

Hakim Bey



Comunicado #5


CAMARADAS!

Recentemente uma certa confusão sobre Caos, levantada por certos setores revanchistas, importunou a AAO, forçando-nos (a nós, que desprezamos polêmicas) a enfim participar de uma Sessão Plenária devotada para denúncias ex cathedra, nefastas como o inferno; nossas faces de retórica, perdigotos voando de nossos lábios, as veias do pescoço inchadas com o fervor do púlpito. Devemos, por fim, nos resumir com cartazes com slogans raivosos (em caracteres de 1930) declarando o que a Anarquia Ontológica não é.


Lembrem-se de que só na física clássica o Caos tem qualquer coisa a ver com entropia, morte térmica e decadência. Em nossa física (Teoria do Caos), o Caos identifica-se com o Tao, mais além tanto do yin-como-entropia quanto do yang-como-energia, sendo mais um princípio de criação do que qualquer nihil, um vazio no sentido de potentia, não exaustão. (Caos como a soma de todas as ordens.)


Dessa alquimia, quintessencializamos uma teoria estética. A arte do Caos pode ser aterrorizante, pode até atuar num grand guignol, mas jamais pode deixar-se encharcar em negatividade pútrida, tanatologia, schadenfreude (deleite com o sofrimento dos outros), sussurrando sobre memorabilia nazista e assassinatos em série. A Anarquia Ontológica não coleciona filmes pedantes e entedia-se profundamente com elites que vomitam filosofia francesa. (Não há esperança alguma e eu já sabia disso antes de você, seu merda. Há!)


Wilhelm Reich foi quase levado à loucura total e assassinado por agentes da Praga Emocional. Talvez metade de sua trabalho deveria da mais absoluta paranóia (conspirações de OVNIs, homofobia, até mesmo sua teoria sobre o orgasmo), MAS em um ponto nós concordamos completamente - sexpol: repressão sexual alimenta a obsessão pela morte, o que leva à más políticas.


Uma grande parte da arte de vanguarda está saturada com Raios de Orgônio Mortal (ROM). A Anarquia Ontológica tem como objetivo construir detonadores de nuvens estéticas (armas-RO) para dispensar o miasma do sadomasoquismo cerebral que hoje em dia é considerado moderno, brilhante, inteligente, o máximo, o novo. Artistas performáticos automutiladores são para nós banais e estúpidos - sua arte deixa todo mundo mais infeliz. Que tipo de bosta barata conivente... que artistas babacas com cérebro de minhoca prepararam esse cozido apocalíptico?


É claro que a vanguarda parece inteligente - como Marinetti e os Futuristas, como Pound e Celine. Em comparação com esse tipo de inteligência, preferimos a estupidez real, a idiotice insossa e bucólica do New Age - preferimos ser idiotas a ficar obcecados pela morte. Mas, felizmente, não precisamos esvaziar o cérebro para alcançar nosso tipo raro de satori. Todas as faculdades, todos os nossos sentidos são nossos, nossa propriedade - coração e cabeça, espírito e intelecto, alma e corpo. A nossa não é uma arte de mutilação, mas de excesso, superabundância, assombro.


Os distribuidores da melancolia sem sentido são os Esquadrões da Morte da estética contemporânea - e nós os desaparecidos. Seu salão de bailes de fantasia com ocultos bricabraques do Terceiro Reich e assassinatos de crianças atrai os manipuladores do Espetáculo - a morte fica melhor na TV do que na vida - e nós, artistas do Caos, que pregamos uma alegria rebelde, somos encurralados e mantidos no silêncio.


Não é precisos dizer que rejeitamos toda a censura da Igreja e do Estado - mas, depois da revolução, de bom grado assumiremos a responsabilidade individual e pessoal pela queima de todo o embolorado lixo artístico dos Esquadrões da Morte e pela sua expulsão da cidade em caravana. (No contexto anarquista, a crítica torna-se uma ação direta.) Em meu espaço não cabe em Jesus e seus senhores das moscas nem Charles Manson e seus admiradores literários. Eu não quero nenhuma polícia mundana - nem assassinos cósmicos e seus machados; nenhum massacre com serra elétrica na TV, nenhum sensível romance pós-estruturalista sobre necrofilia.


No momento, a AAO nutre vaguíssimas esperanças de poder sabotar o mecanismo sufocante do Estado e seu circuito fantasmagórico - mas podemos chegar a ser capazes de fazer algo para diminuir as manifestações da praga dos ROM, como os comedores de cadáveres do Lower East Side e outros lixos artísticos. Apoiamos artistas que usam materiais aterradores para alguma causa nobre - que usam material sexual/afetivo de qualquer tipo, não importa se chocante ou ilegal - que usam sua raiva e asco e seus desejos verdadeiros de caminhar em direção à auto-realização, beleza e aventura.Niilismo Social, sim - mas não o niilismo morto do autodesprezo gnóstico. Mesmo se for violento e abrasivo, qualquer um com um vestígio do terceiro olho consegue enxergar as diferenças entre a arte revolucionária pró-vida e a arte reacionária pró-morte. Os ROM fedem, e o nariz do artista do Caos pode senti-lo da mesma forma que discerne o perfume da alegria espiritual/sexual, mesmo quanto soterrado ou mascarado sob outros odores sombrios. Mesmo a Direita Radical, com todo seu horror da carne e dos sentidos, ocasionalmente aparece com um momento de percepção e aprimoramento da consciência - mas os Esquadrões da Morte, com todo seu cansativo discurso e suas abstrações revolucionárias modernas, oferecem-nos tanta energia libertária quanto o FBI, o FDA e os batistas recalcados.


Vivemos numa sociedade que faz propaganda de suas mercadorias mais caras com imagens de morte e mutilação, enviada diretamente para a parte sub-reptícia do cérebro das multidões através de aparelhos carcinógenos geradores de ondas alfa que distorcem a realidade - enquanto algumas imagens da vida (como a nossa favorita, de uma criança se masturbando) são banidas e punidas com uma ferocidade incrível. Não é preciso coragem para ser um Sádico da Arte, pois a morte libidinosa está no centro estético do Paradigma do Consenso.


Esquerdistas que gostam de se fantasiar e brincar de polícia e ladrão, pessoas que se masturbam olhando para fotos de atrocidades, pessoas que gostam de pensar e intelectualizar sobre a artequalquer jeito, a pretensiosa falta total de esperança, monstruosidade terrível, as desgraças dos outros - tais artistas não são nada além de policiais-sem-poder (uma definição perfeita também para muitos revolucionários) Nós temos uma bomba negra para esses fascistas estéticos - ela explode em espuma e estalos, ervas hilariantes e pirataria, estranhas heresias xiitas e fontes paradisíacas borbulhantes, ritmos complexos, pulsações da vida, tudo o que for sem forma e raro.


Acorde! Respire! Sinta o hálito do mundo em sua pele! Aproveite o dia! Respire! Respire!


(Nossos agradecimentos a J. Mander por seu livro Four Arguments for the Abolition Of Television, a Adam Exit e ao mouro cosmopolita de Williamsburg.)



extraído de: Protopia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

caspar friedrich

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

De um beat a outro: poema de Rothenberg


PROLEGÔMENOS PARA UMA POÉTICA
(1998)

para Michael McClure

.........

O homem poeta caminha entre sonhos
Ele está vivo, ele respira livremente
por um tubo macio como um narguilé.
Cinzas caem ao redor enquanto ele anda
cantando sobre elas.
Oh quão verde
é o sol no ponto em que demarca
o oceano.
Penas vagueiam no alto das colinas
abaixo das quais o homem poeta
continua andando, andando
um passo à frente daquilo que ele teme,
daquilo que ele ama.


...........


(Escrito por Jerome Rothenberg, traduzido por Luci Collin)


Fonte: http://curitibaliteraria.multiply.com/video/item/37/37

domingo, 2 de agosto de 2009

Oswald livro livre



POESIA DE PONTA-CABEÇA (*)


Augusto de Campos


Ao visitar Oswald em companhia de Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Nilo Odália, em 1949, não esperava receber o presente magnífico. A certa altura, animado pela conversa com os jovens postulantes a escritor, Oswald reti­rou-se por um momento e voltou com quatro exemplares das Poesias Reunidas O. Andrade (Edições Gaveta, em largo for­mato, com ilustrações de Tarsila, Segall e do autor) e os ofer­tou, com seu autógrafo, a cada um de nós (a mim me coube o n. 136 dessa edição de apenas duzentos exemplares).

Os livros - o que restava da edição de 1945 - esta­vam empilhados, se bem me lembro, no alto de um armá­rio em dependência interna do apartamento. Oswald os distribuía, assim, generosamente, aos poucos amigos e sim­patizantes. Tal era a solidão do poeta, já quase sexagenário, que, "de facho em riste, bancando o Trotsky, em solilóquio com a revolução permanente" - como o descrevera Patrícia Galvão um ano antes (1)-, continuava a vociferar contra tudo e contra todos em defesa do modernismo e da Antropofagia, à espera do resgate das futuras gerações.

O volume Poesias Reunidas O. Andrade compendiava os dois únicos livros de poemas anteriormente publicados por Oswald - Pau Brasil (1925) e Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927) -, acrescentan­do-lhes o inédito "Cântico dos cânticos para flauta e violão" e alguns "Poemas menores". De Pau Brasil não consta a tiragem; o Primeiro caderno tinha apenas trezentas cópias. Vinte anos depois, a essa pequena safra estava reduzida toda a fortuna editorial da poesia de Oswald, cuja obra só começaria a ser redimida com a publicação, em 1966, das novas Poesias Reunidas (2), que receberiam o acréscimo do poema "O escaravelho de ouro" (1946). Não fora melhor a sorte dos romances-invenção Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), ou a das peças teatrais O homem e o cavalo (1934), A morta, O Rei da Vela (1937), como eles não reeditadas e até então não representadas.

No entanto, este Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, impresso na tipografia da rua de Santo Antônio n. 19, no amplo formato de 26,5 x 21,5 cm, com capa de Tarsila e desenhos de Oswald, tipos em duas cores (todos os títulos em vermelho), é possivelmente o mais belo livro de poesia de nosso modernismo.


O mais belo enquanto conjunto coerente de poemas, risco e ousadia de linguagem associados à concepção plás­tica e material do livro. A edição construída por Oswald e Tarsila tem a ver não só com a poesia propriamente dita, mas com um conceito de reformulação da linguagem visual do livro, que a põe em contato com os grandes cometimen­tos das vanguardas européias, na continuidade do caminho aberto por Mallarmé, em Un coup de dés (1897), "nada ou quase uma arte", prefácio de um hipotético "livro" - um livro livre, que começaria a ser escrito coletivamente no século XX.

Para ficar só em alguns exemplos, bastaria lembrar, como fenômeno grupal, as edições dos livros cubo-futuris­tas, transmentais ou construtivistas russos, que juntaram poetas como Khliébnikov, Maiakóvski, Krutchônikh, Ka­mênski, Iliazd a artistas plásticos do porte de Maliévitch, Ródtchenko, Rozánova, Gontcharóva, Lariônov, EI Lissítski e incorporaram até o entusiasmo de críticos como Roman Jakobson, que, com o pseudônimo de Aliágrov, participou como poeta, ao lado de Krutchônikh, em 1915, de um insó­lito livro zaúm [transmental]; sobre a capa-colagem, um coração vermelho de papelão tendo, pregado, um botão de camisa; no interior, entre os poemas, em gravuras colori­das, as cartas de baralho de Olga Rozánova. Em Pro Eto [Disto], 1923, os poemas de Maiakóvski aparecem articula­dos com as fotomontagens de Ródtchenko; em Dliá Gólossa [Para voz], do mesmo ano e também de Maiakóvski, inte­gram-se definitivamente ao projeto visual, elaborado por Lissítski apenas com recursos tipográficos, em duas cores (vermelho e preto), como um guia funcional de leitura.

Assim, os textos poéticos foram se extraindo das cons­trições gráficas convencionais, ao mesmo tempo que a idéia de "ilustração" evoluía no sentido de maior interpe­netração com o poema e de adequação mais profunda ao livro como um todo. Um outro exemplo, certamente caro aos nossos modernistas - Paulo Prado recebeu uma das raras cópias, a n. 119, dedicada pelo autor a ele e a "tous les amis de San Paolo", em 1924 -, foi La Prose du Transsibérien et de la Petite Jehanne de France, de Blaise Cendrars, volume impresso em várias tintas e ilustrado com "cores simultâneas" por Sonia Delaunay, em 1913: um livro-sanfona, que, desdobrado, atingia cerca de dois metros de comprimento (acoplados, os 150 exemplares da tiragem anunciada alcançariam a altura da Torre Eiffel, tour du monde...).

Nossas revistas modernistas - especialmente Klaxon, do ponto de vista plástico - tentariam responder às provo­cações das congêneres Lacerba, Dada, Blast e tantas outras. Nos projetos de livro, porém, o atrevimento visual tendia a restringir-se à capa, não se aventurando à programação interna.

Foi Oswald, com a cooperação de Tarsila, quem deu a mais significativa resposta, um pouco em Pau Brasil, com a capa irreverente extraída do "pendão da esperança", e muito neste Primeiro caderno, que inspiraria pelo menos uma outra peça de exceção: o amadorístico mas instigante Álbum de Pagu, desenhescrito pela jovem discípula de dezoito anos, em 1929 - livro único que, entregue a Tarsila, só veio a ser redescoberto e difundido na década de 1970, quase meio século depois. Resposta a uma tra­dição nova - a da valorização visual do livro, inconfundí­vel com a edição de luxo e só ocasionalmente assimilável à do livro de artista - que começaria a se perder nos anos 1930: um dos últimos exemplos expressivos seria a primei­ra edição, em 1931, de Cobra Norato, de Raul Bopp, com capa de Flávio de Carvalho; este ainda manteria o brio modernista no n. 1 da RASM (Revista Anual do Salão de Maio), publicada em 1939, com sua capa brutalista, de alu­mínio, que tinha algo das experiências futuristas do Libro­macchina bullonato (Depero/Azari, 1927) e do Libro di latta (Marinetti/Albissola, 1932). Como projeto definido e coletivo, tal tradição só viria a ser retomada pela poesia visual dos anos 1950.

O ideal seria resgatar mais este aspecto inovador da rica personalidade do poeta, reproduzindo em fac-símile, com sua diagramação, dimensões, cores e tipos, design e desenhos, o livro original - o "livro livre" de Oswald. Que, aliás, não se limitou a infiltrar na obra seus grafismos, suas "desilustrações"; teve participação decisiva na própria orga­nização gráfica do livro, como o comprova o documento pertencente ao arquivo particular de Rudá de Andrade: um caderno estudantil, em cuja cobertura Oswald assinalou, de próprio punho, algumas de suas interferências, modifi­cando os nomes dos estados nos brasões e rascunhando o título e os créditos: "Caderno de Exercícios pertencente ao aluno de poesia Oswald de Andrade. Começado em 1925. Acabado em 1926. Capa de Tarsila. Autoilustrações do autor". Esboço de leiaute a indicar que foi do próprio poeta a concepção da capa.


Mas o importante é que, enquanto não surja a oportu­nidade para uma publicação fac-similar, mais custosa e problemática, e por isso mesmo necessariamente limitada, este Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade não deixe de ser reposto e mantido em circulação em edi­ção mais cursiva, ensejando a um público maior o acesso ao livro.

No espaço generoso da edição original, que o contras­te entre tipos vermelhos e pretos ilumina, os poemas res­pondem mais viva e funcionalmente aos jogos intersemió­ticos. Embora sem as dimensões e as cores da edição "princeps", a presente mantém suas características básicas: as barquinhas da "história pátria" dialogam com seus íco­nes "infantis"; o Brás de "delírio de julho", com suas jane­las-ideogramas; a Cadillac de "o pirata" com o correspon­dente garrancho-nuvem-de-pó. E acabamos por sentir os textos oswaldianos inseparáveis desses desenhos, tal como o "hotel esplanada", com seu elevador amoroso, nos parece indissociável do poema gráfico ("não funciona") que o com­plementa. Assim também, os poemas-síntese "fazenda", "crônica", "o pirata", que ocupam, cada qual, uma página, dando espaço à explosão e ao choque. Mais do que todos, o poema inicial "amor" (título em vermelho na edição ori­ginal), que desde logo nos provoca, na concisão unilinear do "humor" sobre o silêncio amplificado da página, com seu estranho e insinuante desenho abstratizado (para aumen­tar a perplexidade do leitor, ele aparecerá invertido em Poesias Reunidas O. Andrade: cogumelo? árvore? roda-gigante?) (3). Amor. Humor. A poesia, "a descoberta/ das coisas que eu nunca vi".

Ao enfatizar a importância da recuperação material do Oswald-de-corpo-inteiro da edição original, noto que falei menos de sua poesia ou de sua poética. Mas esta já foi recuperada, a partir dos anos 1960, apesar de todas as resistências acadêmicas. Oswald já faz parte da corrente sangüínea de nossa poesia. Já somos todos oswaldianos. Seria ocioso, talvez, lembrar aqui a operação de reoxigena­ção executada por Oswald, dentro dos quadros do moder­nismo, nas poéticas exaustas do convencionalismo pós-par­nasiano (o pós-simbolismo radicalizado de um Kilkerry ou de um Ernani Rosas guardaria reservas de modernidade a serem exploradas por outros veios, no futuro).

"The Age demanded". A Era exigia a ruptura do cilício métrico, o abandono do "sermo nobilis", da retórica empos­tada de academismos ou empastada de deliqüescências, e demandava urgentemente o hausto da linguagem cotidia­na, a imediatez do jornal e do cinema - imaginação sem fios, palavras em liberdade, como pregavam os futuristas, antes de todos. A essas demandas vieram responder, a seu tempo, nossos modernistas.

Oswald, radical em tudo, buscou na incivilidade do antropófago (o mau selvagem) e nas incorreções e moleca­gens da infância ("O netinho jogou os óculos/ na latrina") as armas-metáforas para proceder à sua correspondente deslavagem cerebral, seu "grau zero da escrita", seu marco zero. O "Manifesto da Poesia Pau Brasil" (1924) e, logo mais, o "Manifesto Antropófago" (1928) estão em plena sintonia com a poesia que praticou e, mais do que a ilus­tram, a esclarecem: é "ver com olhos livres". Tudo já está ali: da "contribuição milionária de todos os erros" à "sínte­se", à "invenção" e à "surpresa".


Na procura de uma caracterização do poeta interdisci­plinar, ocorreu-me compará-lo - comparação que, eviden­temente, não se traduz em identidade, mas em pontos de referência e iluminação - ao músico-poeta Erik Satie. Do compositor extravagante, que Oswald admirava(4) - e que, como ele, passou por um longo processo de descrédito até ser reabilitado, na década de 1950, pela voz indisciplinada de John Cage -, caberia acentuar aqui o despojamento, o "retour à la simplicité" (Cocteau) e sobretudo a face "satie­rik" (para recorrer ao anagrama perfeito de Picabia) ­o riso subversivo contra a obra "séria", exibido em epigra­mas musicais que metamorfoseiam o clichê em nonsense. E, especificamente com relação ao Primeiro caderno, o Satie de Sports et Divertissements (1914), que, numa seqüência ininterrupta de anedotas-composições, mistura textos bre­víssimos e notas musicais em partituras-poemas caligrafa­das em preto e vermelho, a demandar, também, o fac-sími­le, pois o design faz parte da criação.

Menos aparentada à obra de Villa-Lobos, cuja proli­xidade está nas antípodas de sua verve sintética - mal­grado seja o Villa- Lobos dos anos 1920, do Noneto e dos Choros (o n. 3, de 1925, dedicado, por sinal, a Oswald e Tarsila), o melhor e o mais moderno dos Villas -, a obra poética de Oswald parece ter em comum com a de Satie o absoluto desprezo pelos valores "artísticos". O Oswald poeta (nisto diverso do prosador pós-machadiano) não é um syntaxier ou um artesão, como Mallarmé. Há em sua poesia - avessa, como é, a toda estilização literária e, por outro lado, aberta ao elementarismo da linguagem crua, à colagem brutalista e aos malapropismos da fala cotidiana - uma natural adesão a tudo quanto seja por definição "não-poético", assim como o ruído (já incorpo­rado por Satie na criação de Parade, 1917, cuja partitura previa até sirenes, tiros de revólver e máquinas de escre­ver) é aparentemente "não-musical"; uma recusa crítica, que se avizinha da renúncia feroz e humorada de Satie ("J'emmerde l'Art"). Será essa uma outra chave para se entender o "livro livre" de Oswald. Ao seu ver-com-olhos­-livres haveria de corresponder um ouvir-com-ouvidos-livres.

Parêntese auditivo. Oswald chegou a gravar alguns de seus poemas, entre os quais "balada do esplanada" e "soi­dão" deste Primeiro caderno. Pouco importa a precariedade técnica desses registros feitos despretensiosamente, em fa­mília, nos últimos anos de sua vida. Quem ouve o poeta dizendo, com tanta graça e ironia, esses e outros poemas, assim como as estrofes iniciais do "Cântico dos cânticos para flauta e violão" (com a voz ligeiramente embargada pela emoção na linha "cais da minha vida quebrada"), não esquece, e não pode deixar de sentir quase em casa a pre­sença dessa poesia incorrigível. (5)

Entre a poesia de Pau Brasil e a do Primeiro caderno não há, em termos de linguagem, diferença senão de grau. "Em comprimidos, minutos de poesia", equaciona­ra Paulo Prado, em sua introdução a Pau Brasil. Já prati­cante do poema-minuto, Oswald avança no Primeiro ca­derno e radicaliza o radical, até o poema instantâneo, o poema-flash, de duas ou três linhas, associando-se aos poucos modernos que tentaram com sucesso o miniepi­grama - um Cendrars, um Pound, um Maiakóvski, um Ungaretti, um cummings. E chega ao poema-de-uma­-nota-só, síntese das sínteses: "amor (título) humor (poema)". Pílula-cápsula para explodir o bem-dizer do amor em humor dissonante, duplo sentido, gracioso-­genital. Semente de outras revoluções, essa provocação poética faz lembrar as rupturas mais significativas com a tradição em pintura - o Quadrado negro (1915) e o Branco sobre branco (1917) de Maliévitch, logo respon­dido pela série Negro sobre negro de Ródtchenko -, embora a poética de Oswald, movida a riso e ação, não se esgote nessa prática nem sistematize tal gesto-limi­te. Ao definir a poesia de Oswald como "uma poesia ready-made” (6), Décio Pignatari trouxe à baila uma outra mo­dalidade de radicalismo, o de Marcel Duchamp, mais afei­çoado, talvez, à tipologia do humor oswaldiano. Um humor­amor que vira de ponta-cabeça as poéticas conservadoras para constituir-se em fonte renovadora da poesia.



AUGUSTO DE CAMPOS
São Paulo, outubro de 2005.



Notas:

(*) Versão revista de "Oswald livro livre", texto publicado no caderno Letras, Folha de S.Paulo, São Paulo, 8.2. I 992, p. 10. (N. O.)

1- "Contribuição ao julgamento do Congresso de Poesia" (1948), em Augusto de Campos. Pagu: vida-obra. São Paulo, Brasiliense, 1982, pp. 182-184.

2- Poesias Reunidas de Oswald de Andrade (introd. e org.: Haroldo de Campos; capa: Flávio de Carvalho). São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1966.

3- Segundo Rudá de Andrade, a posição correta do desenho seria mesmo a da primeira edição. Ele se recorda de um comentário de Nonê (Oswald de Andrade Filho), afirmando que a imagem representaria um canhão da guerra de 1914.

4- "Se houve ultimamente um gênio em França, esse se chamou Erik Satie ... ", escreve Oswald de Andrade em Ponta de lança. São Paulo, Martins, 1945, p. 113. [5~ ed. São Paulo, Globo, 2004, p. 158.]

5- As leituras de Oswald, preservadas por Rudá de Andrade, foram incluídas no CD Ouvindo Oswald (Funarte, 1999), totalizando cerca de treze minutos. A meu cargo ficou a coordenação literária e o roteiro. Cid Campos incumbiu-se da produção musical e do tratamento sonoro dos textos. Participaram do CD, complementando as leituras de Oswald, os poetas Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Omar Khouri, Paulo Miranda, Walter Silveira, Lenora de Barros e Arnaldo Antunes, caben­do-me também algumas das oralizações.

6- Décio Pignatari. "Marco Zero de Andrade", em Contracomunicação. São Paulo, Perspectiva, 1971, pp. 141 - 155.


Fonte:

Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade (pgs. 13-23), Editora Globo, 2008.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

desapego




O que eu tenho a perder se a América cair?
Meu corpo? Meu pescoço? Minha personalidade?


(Allen Ginsberg)


Mais um trechinho da Revista Azougue.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

As idéias não têm autor




Antes de mais nada, trata-se de objetos de apropriação; a forma da propriedade que relevam é de tipo bastante particular; está codificada desde há anos. Importa realçar que esta propriedade foi historicamente segunda em relação ao que poderíamos chamar a apropriação penal. Os textos, os livros, os discursos começaram efetivamente a ter autores (outros que não personagens míticas ou figuras sacralizadas e sacralizantes) na medida em que o autor se tornou passível de se punido, isto é, na medida em que os discursos se tornaram transgressores. Na nossa cultura (e, sem dúvida, em muitas outras), o discurso não era, na sua origem, um produto, uma coisa, um bem; era essencialmente um ato - um ato colocado no campo bipolar do sagrado e do profano, do lícito e do ilícito, do religioso e do blasfemo. Historicamente, foi um gesto carregado de riscos antes de ser um bem preso num circuito de propriedades. Assim que se instaurou um regime de propriedade para os textos, assim que se promulgaram regras estritas sobre os direitos do autor, sobre as relações autores-editores, sobre os direitos de reprodução, etc. - isto é, no final do século XVIII e no início do século XIX -, foi nesse momento que a possibilidade de transgressão própria do ato de escrever adquiriu progressivamente a aura de um imperativo típico da literatura. Como se o autor, a partir do momento em que foi integrado no sistema de propriedade que caracteriza a nossa sociedade, compensasse o estatuto de que passou a auferir como o retomar do velho campo bipolar do discurso, praticando sistematicamente a transgressão, restaurando o risco de uma escrita à qual, no entanto, fossem garantidos os benefícios da propriedade.


Michel Foucault - saque/dádiva - Revista Azougue

domingo, 14 de junho de 2009

Mediterrâneo





ITÁLIA

(Álvares de Azevedo)


AO MEU AMIGO O CONDE DE FÉ

Veder Napoli e poi morir.


I

Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento;
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento !

Eu podia viver — e porventura
Nos luares do amor amar a vida;
Dilatar-se minh'alma como o seio
Do pálido Romeu na despedida!

Eu podia na sombra dos amores
Tremer num beijo o coração sedento:
Nos seios da donzela delirante
Eu podia viver inda um momento!

Ó Anjo de meu Deus! se nos meus sonhos
Não mentia o reflexo da ventura,
E se Deus me fadou nesta existência
Um instante de enlevo e de ternura,

Lá entre os laranjais, entre os loureiros,
Lá onde a noite seu aroma espalha
Nas longas praias onde o mar suspira,
Minh'alma exalarei no céu da Itália!

Ver a Itália e morrer!... Entre meus sonhos
Eu vejo-a de volúpia adormecida:
Nas tardes vaporentas se perfuma
E dorme à noite na ilusão da vida!

E, se eu devo expirar nos meus amores,
Nuns olhos de mulher amor bebendo,
Seja aos pés da morena Italiana,
Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.

Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento,
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento!

II

A Itália! sempre a Itália delirante!
E os ardentes saraus, e as noites belas!
A Itália do prazer, do amor insano,
Do sonho fervoroso das donzelas!

E a gôndola sombria resvalando
Cheia de amor, de cânticos e flores,
E a vaga que suspira à meia-noite
Embalando o mistério dos amores!

Ama-te o sol, ó terra da harmonia,
Do levante na brisa te perfumas:
Nas praias de ventura e primavera
Vai o mar estender seu véu d'escumas!

Vai a lua sedenta e vagabunda
O teu berço banhar na luz saudosa,
As tuas noites estrelar de sonhos
E beijar-te na fronte vaporosa!

Pátria do meu amor! terra das glórias
Que o gênio consagrou, que sonha o povo,
Agora que murcharam teus loureiros
Fora doce em teu seio amar de novo:

Amar tuas montanhas e as torrentes
E esse mar onde bóia alcion dormindo,
Onde as ilhas se azulam no ocidente,
Como nuvens à tarde se esvaindo;

Aonde à noite o pescador moreno
Pela baía no batel se escoa,
E murmurando, nas canções de Armida,
Treme aos fogos errantes da canoa;

Onde amou Rafael, onde sonhava
No seio ardente da mulher divina,
E talvez desmaiou no teu perfume
E suspirou com ele a Fornarina!

E juntos, ao luar, num beijo errante
Desfolhavam os sonhos da ventura,
E bebiam na lua e no silêncio
Os eflúvios de tua formosura!

Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhos
A promessa do amor me não mentia,
Concede um pouco ao infeliz poeta
Uma hora da ilusão que o embebia!

Concede ao sonhador, que tão-somente
Entre delírios palpitou d'enleio,
Numa hora de paixão e de harmonia
Dessa Itália do amor morrer no seio!

Oh! na terra da vida e dos amores
Eu podia sonhar inda um momento,
Nos seios da donzela delirante
Apertar o meu peito macilento!


Maio, 1851 - S. Paulo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Carta de Lévi-Strauss a André Breton (e resposta)



Carta de Lévi-Strauss a André Breton (e resposta)
[capítulo XX de Olhar escutar ler – Claude Lévi-Strauss]

Contei alhures* em quais circunstâncias conheci André Breton, a bordo do navio que nos levava à Martinica; uma longa travessia, cujo tédio e desconforto evitávamos discutindo a natureza da obra de arte, inicialmente por escrito, depois em conversas.

Para começar, eu tinha entregado uma nota a André Breton. Ele respondeu, e eu guardei preciosamente sua carta. Quis o acaso que, anos e anos mais tarde, eu encontrasse minha nota quando classificava papéis velhos; Breton provavelmente a tinha devolvido a mim.

Ei-la, seguida do texto inédito de André Breton, que agradeço a Elisa Breton e Aube Elléoüet por me terem autorizado a publicar.




Nota acerca das relações entre a obra de arte e o documento, escrita e entregue a André Breton a bordo do Capitaine Paul-Lemerle, em março de 1941

“No ‘Manifeste du surréalisme’ [Manifesto do surrealismo], A. B. define a criação artística como atividade absolutamente espontânea do espírito; uma tal atividade pode ser concebida como resultado de um treinamento sistemático e da aplicação metódica de um determinado número de receitas; contudo, a obra de arte se define – e se define unicamente – por seu caráter de liberdade total. Parece que, quanto a isso, A. B. modificou sensivelmente a sua atitude (em La situation surréaliste de l’objet [A situação surrealista do objeto]).

Entretanto, a relação existente, segundo ele, entre a obra de arte e o documento não é perfeitamente clara. Se é evidente que toda obra de arte é um documento, poder-se-ia admitir, como decorreria de uma interpretação radical de sua tese, que todo documento seja, por isso mesmo, uma obra de arte? Partindo da posição do Manisfeste, três interpretações são na realidade possíveis.

1) O valor estético da obra de arte depende exclusivamente de sua maior ou menor espontaneidade, sendo a obra de arte mais válida (enquanto tal) definida pela absoluta liberdade de sua produção. Como qualquer pessoa, adequadamente treinada, é capaz de atingir essa completa liberdade de expressão, a produção poética está aberta a todos. O valor documental da obra se confunde com seu valor estético; o me; o melhor documento (assim considerado em função do grau de espontaneidade criativa) é também o melhor poema; de direito, senão de fato, o melhor poema pode ser não apenas compreendido, mas produzido por qualquer um. É possível conceber uma humanidade cujos membros, exercitados por uma espécie de método catártico, seriam todos poetas.

Tal interpretação aboliria o conjunto dos privilégios eletivos compreendidos até o momento sob o nome de talento; e se ela não nega o papel do esforço e do trabalho na criação artística, no mínimo desloca-os para um estágio anterior ao da criação propriamente dita: o da busca difícil e da aplicação dos métodos para suscitar um pensamento livre.

2) Mantida a interpretação precedente, constata-se, contudo, a posteriori, que se os documentos obtidos de um grande número de indivíduos, do ponto de vista documental, podem ser considerados como equivalentes (isto é, resultantes de atividades mentais igualmente autênticas e espontâneas), não o são do ponto de vista artístico, já que alguns deles proporcionam gozo e outros não. Como continuamos definindo a obra de arte como um documento (produto bruto da atividade do espírito), aceitaremos a distinção sem procurar explicá-la (e sem ter para isso a possibilidade dialética). Constata-se a existência de indivíduos poetas e de outros que não o são, apesar da completa igualdade de condições de suas respectivas produções. Toda obra de arte continua sendo um documento, mas cabe distinguir, entre esses documentos, os que são também obras de arte e os que não passam de documentos. Mas como uns e outros seguem sendo definidos como produtos brutos, essa distinção, impondo-se ‘a posteriori’, será ela mesma considerada como um dado primitivo que escapa, por sua natureza, a qualquer interpretação. A especificidade da obra de arte será reconhecida, sem que seja possível explicá-la. Constituirá um ‘mistério’.

3) Finalmente, uma terceira interpretação, embora mantenha o princípio fundamental do caráter irredutivelmente irracional e espontâneo da criação artística, distingue entre o documento, produto bruto da atividade mental, e a obra de arte, que é sempre uma elaboração secundária. É evidente, contudo, que tal elaboração não pode ser obra do pensamento racional e crítico; tal possibilidade deve ser definitivamente excluída. Mas supõe-se que o pensamento espontâneo e irracional pode, em certas condições, e em alguns indivíduos, tomar consciência de si mesmo e tornar-se verdadeiramente reflexivo, contanto que essa reflexão se exerça segundo normas que lhe são próprias, e tão refratárias à análise racional quanto a matéria a que se aplicam. Essa “tomada de consciência irracional” acarreta uma certa elaboração do dado bruto, exprime-se pela escolha, a eleição, a exclusão, o ordenamento em função de estruturas imperativas. Se toda obra de arte continua sendo um documento, ela ultrapassa o plano documental, não apenas pela qualidade da expressão bruta, mas também pelo valor da elaboração secundária, que, aliás, só é chamada de “secundária” em relação aos automatismos de base, mas que, em relação ao pensamento crítico e racional, apresenta o mesmo caráter de irredutibilidade e de primitividade que os próprios automatismos.

A primeira interpretação não está de acordo com os fatos. A segunda diminui o problema da criação artística de análise teórica. A terceira, ao contrário, parece ser a única capaz de evitar certas confusões, das quais o surrealismo parece nem sempre ter escapado, entre o que é esteticamente válido e o que não é, entre o que é mais ou menos esteticamente válido. Todo documento não é necessariamente uma obra de arte, e tudo o que constitui uma ruptura pode ser igualmente válido para o psicólogo ou para o militante.

A obra de um débil mental tem um interesse documental tão grande quanto a de Lautréamont, pode ter uma eficácia polêmica superior, mas uma é obra de arte e a outra não, e é preciso dispor do meio dialético de explicar a diferença, assim como a possibilidade de Picasso ser um pintor maior do que Braque, Apollinaire um grande poeta e Roussel, não, Salvador Dali, um grande pintor e ao mesmo tempo um escritor detestável, sendo estas opiniões registradas apenas à guisa de exemplo(1), mas opiniões desse tipo, ainda que possivelmente diferentes ou opostas, devem constituir o termo absolutamente necessário da dialética do poeta e do teórico.

Como as condições fundamentais da produção do documento e da obra de arte foram reconhecidas como idênticas, essas distinções essenciais só podem ser atingidas deslocando-se a análise, da produção para o produto, e do autor para a obra.”

Relendo hoje essa nota manuscrita, incomodam-me o desajeitado do pensamento e o peso da expressão. Não me basta a desculpa de tê-la escrito diretamente (apenas duas palavras foram rasuradas). Teria preferido esquecê-la. Mas isso não teria sido justo para com o texto importante que Breton me entregou como resposta. Sem o meu, não seria possível compreender de que trata o dele.

No manuscrito de Breton, rasuras cuidadosas tornam indecifráveis uma dezena de palavras ou trechos de frases, substituídos por uma nova redação nas entrelinhas, em que há também alguns acréscimos. As correções feitas nas últimas linhas, bastante rasuradas, não permitem decidir se Breton, menos apressado em concluir, teria optado por uma construção gramatical ou se a rejeitou deliberadamente.





Resposta de André Breton


“A contradição fundamental que o sr. sublinha não me escapou: permanece, apesar de esforços meus e de outros para reduzi-la (mas ela não me preocupa, e não poderia confundir-me, pois sei que nela reside o segredo do movimento para a frente que permitiu ao surrealismo durar). Sim, naturalmente, minhas posições variaram sensivelmente depois do primeiro manifesto. No interior de tais textos-programa, que não suportam a expressão de nenhuma reserva, de nenhuma dúvida, cujo caráter essencialmente agressivo exclui qualquer espécie de nuance, é claro que meu pensamento tende a adquirir uma forma extremamente brutal, simplista até, que eu não lhe reconheço internamente.

Tal contradição, que lhe chama a atenção, é, creio, a mesma que Callois, como eu lhe dizia, ressaltou com tanta severidade. Tentei explicar-me num texto intitulado ‘La beauté sera convulsive’ [A beleza será convulsiva] (Minotaure n. 5) e retomado no início de L’amour fou [O amor louco]. De fato, eu cedo alternadamente – mas, afinal, por que não? não sou o único – a duas tendências bem distintas: a primeira leva-me a buscar na obra de arte um gozo (é a única palavra adequada, o sr. a utiliza, pois a análise desse sentimento em mim apresenta-me apenas elementos para-eróticos); a segunda, que pode manifestar-se independentemente da primeira ou não, leva-me a interpretá-la em função do desejo geral de conhecimento. Essas duas tentações, que distingo no papel, nem sempre são destrinçáveis (tendem igualmente a confundir-se em diversas passagens de Une saison em enfer [Uma temporada no inferno].

É evidente que, se toda obra de arte pode ser considerada do ângulo do documento, a recíproca não poderia de modo algum sustentar-se.

Examinando sucessivamente as suas três interpretações, não sinto nenhum incômodo em dizer-lhe que só me sinto próximo da última. Direi, contudo, algumas palavras a respeito das anteriores:

1) Não estou seguro de que o valor estético da obra de dependa de sua maior ou menor espontaneidade. Eu tinha em vista muito mais sua autenticidade do que sua beleza, e a definição de 1924 é testemunho disso: ‘Ditada pelo pensamento... fora de qualquer preocupação estética ou moral’. Não lhe escapará sem dúvida que a omissão deste último trecho da frase teria privado o autor de textos automáticos de uma parte de sua liberdade: era preciso começar por protegê-lo de qualquer julgamento dessa ordem se se quisesse evitar que fosse por ele constrangido ‘a priori’ e se comportasse de acordo.

Isso não foi, infelizmente, de todo evitado (mínimo de arranjo do texto automático em poema: deplorei-o em minha carta a Rolland de Reneville, publicada em Point du jour, mas é fácil isolar a preocupação e abstrair-lhe a obra em questão).

2) Não estou tão seguro quanto o sr. da grande diferença qualitativa que existe entre os diversos textos totalmente espontâneos que podem ser obtidos. Sempre me pareceu que ‘o principal’ elemento de mediocridade suscetível de intervir devia-se à impossibilidade em que se encontram muitos seres de colocar-se nas condições exigidas para a experiência. Eles se contentam em registrar discursos sem nexo, cujo sem pé nem cabeça, o despropósito, nos ilude mas que, por sinais facilmente perceptíveis, podemos constatar que não se jogaram realmente naquilo, o que basta para afastar seu alegado testemunho. – Se digo que não estou tão certo quanto o sr., é principalmente porque ignoro como o ‘eu’ (comum a todos os homens) se encontra repartido (igualmente ou, se desigualmente, em que medida?) entre os homens. Apenas uma investigação de caráter sistemático ‘e que deixe provisoriamente de lado os artistas’ poderia instruir-nos a esse respeito. A hierarquização das obras surrealistas não me interessa nem um pouco (ao contrário de Aragon, que afirmava outrora: “Se se escreve de maneira puramente surrealista tristes imbecilidades, serão tristes imbecilidades”); bem como, o que já declarei, a hierarquização das obras românticas ou simbolistas. Minha classificação destas últimas seria profundamente diferente da corrente e, principalmente, objeto a essas outras classificações pelo fato de nos fazerem perder de vista o significado profundo, histórico, desses movimentos.

3) A obra de arte exige ‘sempre’ essa elaboração secundária? Sim, certamente, mas apenas no sentido bastante lato em que o sr. a entende, como “tomada de consciência irracional”; e, mesmo assim, em que nível da consciência essa elaboração se opera? Em todo caso, não sairíamos do pré-consciente. As produções de Hélène Smith em estado de transe não podem ser consideradas como obras de arte? E se conseguissem provar que determinados poemas de Rimbaud são pura e simplesmente devaneios, sonhos em estado de vigília, o sr. os apreciaria menos? Relegá-los-ia à gaveta dos “documentos”? A distinção continua a parecer-me arbitrária. Torna-se, a meu ver, enganosa quando o sr. opõe Apollinaire poeta a Roussel não-poeta ou Dali pintor a Dali escritor. O sr. tem certeza de que o primeiro desses julgamentos não por demasiado tradicionalista, que não leva demais em conta a “velharia poética”? Não considero Dali um grande pintor, e isso pela excelente razão de que sua técnica é manifestamente regressiva. Nele, é realmente o homem que me interessa, e sua interpretação poética do mundo. Assim, não posso associar-me a sua conclusão (mas disso o sr. já sabia). Outras razões mais imperiosas militam em favor de sua não-aceitação de minha parte. Essas razões, insisto, são de ‘ordem prática’ (adesão ao materialismo histórico). O aligeiramento da responsabilidade psicológica é necessário para a obtenção da atitude inicial de que tudo depende, sim, mas a responsabilidade psicológica e moral muito mais: identificação progressiva do eu consciente com o conjunto de suas concretizações (a expressão é desajeitada) considerado como teatro no qual ele é chamado a produzir-se e reproduzir-se, tendência à síntese do princípio de prazer e do princípio de realidade (perdoe-me permanecer sempre a beira de meu pensamento a esse respeito); concordância a qualquer custo entre o comportamento extra-artístico e o da obra: anti-valerysmo.”

*em Tristes Trópicos

(1) Ainda que formuladas de modo hipotético, parecem-me hoje em dia bastante ingênuas. Meus horizontes de 1941 iriam, felizmente, expandir-se ao contato com os surrealistas.

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[capítulo XX de Olhar escutar ler – Claude Lévi-Strauss]




Nota do Blog:

Como o leitor pode facilmente perceber, o texto acima contém alguns erros. Ele foi extraído do site: http://www.esnips.com/doc/f8567214-8eb7-451f-bab0-7fed5b54ded1/Carta-de-L%C3%A9vi-Strauss-a-Andr%C3%A9-Breton , e não diretamente do livro indicado. Caso alguém saiba como ele originalmente se apresenta, por favor, envie-me a correção.