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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

beats: da ecologia ao budismo

Gary Snyder, Peter Orlowsky, Allen Ginsberg


Entrevista com Allen Ginsberg feita por Rodrigo Garcia Lopes

"Quando o entrevistei em 1990, no Arizona, para meu livro Vozes e Visões, perguntei quais teriam sido as principais contribuições da geração beat. Ele respondeu: 'Cada um de nós enfatiza um ponto diferente. Gary Snyder chegou à conclusão de que foi a proclamação da consciência ecológica. (…) Minha impressão é a de que contribuímos para um encontro direto entre a mente oriental e a ocidental. A introdução da meditação na poesia norte-americana também foi uma contribuição importante. Embora os transcendentalistas, como Thoreau e Emerson, também tivessem interesse pelas culturas, filosofias e literatura orientais, não tinham um contato direto com mestres dessas culturas como nós tivemos. Whalen e Snyder ajudaram a estabelecer a prática budista na América. O movimento beat nos despertou para uma mente mais espontânea, para uma sensibilidade maior diante das coisas da natureza, das outras culturas, da nossa individua- lidade. (…) Outra coisa foi a aproximação com a música e a reconciliação entre as culturas branca e negra: os brancos, no caso, reconhecendo o valor sagrado e a riqueza da cultura negra'. "

(Trecho do artigo O uivo vivo de Allen Ginsberg)

sábado, 27 de novembro de 2010

Footnote to Howl


Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The world is holy! The soul is holy! The skin is holy!
The nose is holy! The tongue and cock and hand
and asshole holy!
Everything is holy! everybody's holy! everywhere is
holy! everyday is in eternity! Everyman's an
angel!
The bum's as holy as the seraphim! the madman is
holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is
holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy
Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cas-
sady holy the unknown buggered and suffering
beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks
of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop
apocalypse! Holy the jazzbands marijuana
hipsters peace & junk & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy
the cafeterias filled with the millions! Holy the
mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the
middle class! Holy the crazy shepherds of rebell-
ion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria &
Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow
Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the
clocks in space holy the fourth dimension holy
the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the
locomotive holy the visions holy the hallucina-
tions holy the miracles holy the eyeball holy the
abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours!
bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent
kindness of the soul!




Berkeley 1955

(Allen Ginsberg)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Meados de Agosto no Miradouro da Montanha Sourdough



No vale um véu de fumo

Calor de três dias, após chuva de cinco

Resina a luzir nas pinhas do abeto

Em meio a rochas e prados

Enxames de moscas novas.


Não consigo lembrar coisas que já li

Uns poucos amigos, mas estão em cidades.

Bebendo fria água de neve em caneca

A perscrutar milhas lá embaixo

Pelo ar alto parado.



(Gary Snyder)

sábado, 17 de abril de 2010

Observações Sobre as Tendências Religiosas



Gary Snyder



É bom lembrar que todas as religiões contêm noventa por cento de fraude e são responsáveis por numerosos males sociais. Mesmo assim, dentro da geração beat verifica-se a existência de três tendências:


1. Busca da visão e da iluminação. Esse resultado é obtido geralmente pelo uso sistemático de drogas. A marijuana é um recurso de consumo diário e o peiote é o verdadeiro estimulante da percepção. Tanto um como o outro são complementados às vezes por práticas iogues, álcool ou similares. Embora uma boa parte de auto-consciência possa ser obtida pelo uso inteligente das drogas, o hábito de "drogar-se" não conduz a nada porque falta exatamente inteligência, vontade e compreensão. Uma sensação puramente pessoal, obtida às custas de um tóxico, não beneficia ninguém.


2. Amor, respeito à vida, abandono, Whitman, pacifismo, anarquismo, etc. Todas essas tendências são provenientes de inúmeras tradições, entre as quais a religião Quakers, o Budismo Shinshu, o Sufismo, etc. Todas são frutos de um coração generoso e apaixonado. Em suas manifestações mais dignas, essas tendências levaram algumas pessoas a condenarem ativamente as guerras, fundar comunidades e amarem-se umas às outras. Em parte, elas também são responsáveis pela mística dos "anjos", a glorificação das viagens a pé e das caronas, bem como por uma forma de entusiasmo inconsciente. Se respeitam a vida, não respeitam a sabedoria da impassibilidade e a morte. E essa é uma de suas falhas.


3. Disciplina, estética e tradição. Essas tendências são bem anteriores ao surgimento oficial da geração beat. Diferenciam-se da doutrina "Tudo é um" na medida em que seus praticantes estabeleceram uma religião tradicional, tentaram incorporar o sentimento de sua arte e de sua história, e praticam qualquer ascese que for necessária. Uma pessoa pode tornar-se um dançarino aimu ou um xamã yurok, ou até mesmo um monge trapista, se ela realmente o deseja. O que falta nesse tópico, é o que os dois primeiros possuem, ou seja, uma existência perfeitamente adaptada à realidade do mundo e percepções realmente verdadeiras do inconsciente.


A conclusão prosaica é a seguinte: se uma pessoa não for capaz de compreender todos esses aspectos - contemplação (que não seja pelo uso de drogas), moralidade (que para mim significa protesto social) e sabedoria - ela não estará à altura de levar uma autêntica vida beat. Mesmo assim, poderá ir bastante longe nessa direção, o que é preferível que ficar rodando pelas salas de aula ou escrever tratados sobre o budismo e a felicidade das massas, como os caretas fazem com tanto sucesso.






segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Consciência Verde


Entrevista com Gary Snyder extraída de: Consciência Verde. Gary Snyder, defensor de uma vida mais simples e próxima da natureza





O que é consciência ecológica para você?


O termo “consciência social” surgiu da preocupação com a saúde e a justiça da humanidade. Precisamos, de fato, nos preocupar com as desigualdades da nossa ordem social e com o sofrimento de alguns de nossos irmãos. Já a consciência ecológica é a preocupação com todos os seres,todas as espécies,todos os habitats e ecossistemas complexos que constituem o mundo orgânico. A consciência ecológica é a extensão de uma preocupação moral que vai além das estreitas fronteiras humanas.


E de onde vem essa sua idéia de êxodo urbano? O campo está preparado para receber as pessoas de volta?


Chamei isso de re-habitação, um conceito que, às vezes, eu mesmo acho que parece ficção científica. Mas, quando olho para a realidade ao meu redor, sinto que meu raciocínio faz sentido: caminhando nesse ritmo, haverá um tempo futuro em que seremos obrigados, por causa do colapso ambiental, a deixar as cidades e os subúrbios, voltando para os campos.As pessoas vão voltar a viver com simplicidade e ecologicamente, desenvolvendo uma intenção sincera de estar ali por muitos milhares de anos, mantendo práticas verdes e sustentáveis.


Enquanto isso não acontece, como conseguir viver bem e aliviar a tensão típica de quem mora nos grandes centros?


Não assista a tantos programas de televisão, coma alimentos saudáveis, durma bem, acorde cedo, respire profundamente, faça exercícios, medite, cuide das necessidades da sua família, dê atenção aos seus amigos e a todas as pessoas. Olhe mais para o céu e para as águas correntes, escute os insetos e os pássaros e agradeça ao universo visível e invisível, sempre. Já é um bom começo. É importante lembrar também que cidades são apenas grandes vilarejos próximos de rios ou de mares. Precisamos amá-las mais.


Mas e quanto ao ambiente em si, não há nada que possamos fazer para tentar evitar esse colapso que você cita?


Claro que há. Uma boa arquitetura urbana, por exemplo, pode fazer uma grande diferença de preferência, se ela estiver aliada a um planejamento urbano verde. Eu ganhei um vídeo sobre a cidade brasileira de Curitiba, onde parece que as pessoas deram alguns passos na direção de tornar a cidade melhor para se morar.


E hoje em dia, mesmo uma pessoa acostumada ao conforto das grandes cidades conseguiria se adaptar ao campo? Não existe o risco de devastação das paisagens naturais caso esse retorno bucólico ocorra?


É tudo conciliável. Graças à tecnologia e ao conhecimento de que dispomos atualmente, é possível viver com conforto e sem agredir tanto a natureza. Veja o nosso caso: vivemos num lugar ermo, onde não há rede elétrica. Então dependemos de painéis solares, grandes baterias e um gerador para fornecer a eletricidade, recurso que aprendemos a não desperdiçar nunca deixamos uma luz acesa à toa, mesmo as crianças agem assim, espontaneamente. Não usamos ar-condicionado, esquentamos nossa casa com lenha, recolhida do chão da floresta. Usamos roupas quentes no inverno e quase nenhuma roupa exceto colares de contas e brincos no verão.


Mas há espaço para esse estilo de vida? As pessoas estão interessadas em viver de forma tão diferente?


Sinceramente, acredito que sim. Sou constantemente convidado a dar palestras sobre questões ambientais: falo de florestas, vida selvagem, e também sobre as grandes questões das economias globalizadas e o imperialismo do mundo desenvolvido. Defendo a sobrevivência das culturas indígenas em todos os lugares povos que mantêm o estilo de vida que considero adequado. Aproveito essas ocasiões para mostrar que nossa preocupação ética não pode ficar limitada aos seres humanos, mas deve ser estendida a todas as espécies. O princípio judaico-cristão “não matarás” apenas se refere aos seres humanos. Está na hora de englobar a natureza.


Você também teve contato com o xamanismo e com plantas de poder. O que essas experiências lhe ensinaram sobre a natureza?


Tive algumas experiências com xamanismo em Turtle Island, onde conheci um guia em experiências espirituais. Experimentei o cogumelo psilocybe e o cacto peyote. As plantas de poder foram sempre muito instrutivas. O que quer que sejam em seus caminhos complexos, mostraram verdades escondidas dentro de mim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Os ciclos da vida, para & por Lew Welch


For/From Lew

Lew Welch just turned up one day,
live as you and me. "Damn, Lew" I said,
"you didn't shoot yourself after all."
"Yes I did" he said,
and even then I felt the tingling down my back.
"Yes you did, too" I said—"I can feel it now."
"Yeah" he said,
"There's a basic fear between your world and
mine. I don't know why.
What I came to say was,
teach the children about the cycles.
The life cycles. All other cycles.
That's what it's all about, and it's all forgot."




(Gary Snyder)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

De um beat a outro: poema de Rothenberg


PROLEGÔMENOS PARA UMA POÉTICA
(1998)

para Michael McClure

.........

O homem poeta caminha entre sonhos
Ele está vivo, ele respira livremente
por um tubo macio como um narguilé.
Cinzas caem ao redor enquanto ele anda
cantando sobre elas.
Oh quão verde
é o sol no ponto em que demarca
o oceano.
Penas vagueiam no alto das colinas
abaixo das quais o homem poeta
continua andando, andando
um passo à frente daquilo que ele teme,
daquilo que ele ama.


...........


(Escrito por Jerome Rothenberg, traduzido por Luci Collin)


Fonte: http://curitibaliteraria.multiply.com/video/item/37/37

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ampliando a consciência



Uma nota de Allen Ginsberg para seu "Kaddish and Other Poems" :

"'Magic Psalm', 'The Reply' and 'The End' record visions experienced after drinking Ayahuasca, an Amazonian spiritual potion. The message is: Widen the area of consciousness."

(Howl, Kaddish and Other Poems - Allen Ginsberg - Penguin Modern Classics)


Em português:

Salmo Mágico, a Resposta & O Fim registram as visões experimentadas depois de tomar Aiauasca, uma poção espiritual do Amazonas. A mensagem é: Alargar a área da consciência.

(Revista Agulha - artigo especial para Allen Ginsberg - como o site original está indisponível, coloquei aqui a versão que aparece no google na opção "em cache")

sexta-feira, 3 de julho de 2009

desapego




O que eu tenho a perder se a América cair?
Meu corpo? Meu pescoço? Minha personalidade?


(Allen Ginsberg)


Mais um trechinho da Revista Azougue.