sábado, 24 de outubro de 2009

O Pau Brasil (*)


Por: Larissa Barcellos


Pois bem, meus caros leitores, faço aqui uma pausa para refletir acerca de um problema que me foi colocado há exatamente um ano, quando eu estava lendo o livro “Antropólogos e a Antropologia”, de Adam Kuper. Nesta mesma época, assisti ao Grupo de Trabalho coordenado por Marcio Goldman e Eduardo Vargas na reunião anual da ANPOCS, sobre a Antropologia Pós-Social. Compareci, também, à palestra proferida por Eduardo Viveiros de Castro na USP, sobre Claude Lévi-Strauss. Estes dois últimos eventos representam, para mim, uma entrada mais efetiva na Antropologia.


O Problema


O ultimo capitulo do livro de Kuper tem como epígrafe a seguinte questão, levantada por Leach:

“Afinal, em nome dos céus, o que nós estamos tentando descobrir?”

Confesso que fiquei contente ao ler esta frase, já que acreditava que crises deste tipo eram usuais apenas nas mentes confusas dos estudantes de graduação.

A mesma pergunta reapareceu para mim alguns meses depois, em um texto de Marcio Goldman (que citava Kuper), com comentários que, na época, eu pouco entendi.


A Piada


Quando eu estava na escola, os meus amigos e eu gostávamos de interromper as aulas para contar aos professores uma piada infame, pelo simples prazer da interrupção, e na tentativa de quebrar o tédio.

Ela era assim:

Aluno: Como os portugueses descobriram o Pau Brasil?

Professor: Observando a mata brasileira.

Aluno: Não! Foi levantando a tanguinha dos índios.

Na primeira vez que ouvi esta piada eu não entendi o seu significado, por não ter percebido o trocadilho com a palavra “descobrir”. Foi somente alguns anos depois, ao contá-la a uma amiga, que pude compreender o que ela queria dizer.


A descoberta


O ponto em comum mais evidente entre estes dois enunciados é o uso da palavra “descobrir” – e eu me apoio aqui, de maneira in-conseqüente, na tradução para o português do livro de Kuper.

Na fala de Leach, a palavra tem o mesmo significado acionado pelo professor em sua resposta ao aluno. Este, entretanto, subverte o significado do verbo, dando graça à piada, e também demonstrando tanto as armadilhas interessantes da fala brasileira, quanto o contraste entre as maneiras usuais de se pensar através da linguagem, e suas alternativas possíveis e implícitas.

Proponho que façamos o mesmo com a questão posta por Leach e reproduzida tanto por Kuper quanto por Goldman, mas também por muitos dos meus colegas de curso. Acionemos, como o aluno, o significado outro da palavra “descobrir”, a partir da tradução da fala do antropólogo para o português. A questão que coloco aqui é: e se, ao invés de pensarmos como o professor, visualizarmos o seu significado à maneira do aluno?

Proponho, também, que pensemos o antropólogo enquanto etnógrafo – e Leach o era – interessado no contato com outras culturas e formas de viver. Poderíamos aproximá-lo, então, dos portugueses, os homens da ação (na piada), e não do discurso (no contar a piada), os homens da experiência (o levantar a tanga e ver o que está por baixo) que leva à linguagem (a historinha contada pelo aluno), e não da linguagem (piada) que leva à experiência (o imaginar a situação ou rir da piada) (1). O que, então, poderíamos estar tentando descobrir? Esta é uma ação particular e deve ser situada. Oras, estamos falando aqui do Brasil – e outro ponto em comum entre a pergunta e a piada é colocado: ambos foram enunciados em português e por/para os falantes desta língua – e isto, creio, basta por enquanto para que possamos situá-la no Brasil.

Leach era um antropólogo das ditas “sociedades primitivas”, sendo um dos responsáveis pela incorporação do pensamento de Lévi-Strauss na Inglaterra. Aproximo-o (ainda de maneira in-conseqüente) a Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro que também estuda as “sociedade primitivas” e é um dos responsáveis pela re-incorporação do pensamento de Lévi-Strauss no Brasil.

Podemos aproximar também a história do aluno à de Viveiros de Castro. Na primeira, os portugueses, ao chegarem até os índios, descobriram-nos de suas roupas (2) e perceberam o corpo de um “outro” ser humano, diferente dos seus. Eduardo Viveiros de Castro, por sua vez, foi à Amazônia e, ao se livrar de sua forma de ver os índios, das categorias que moldavam o seu pensamento, buscou ver aquelas a que os próprios índios se colocavam, percebendo uma forma de pensamento “outra”, diferente da sua.

Viveiros de Castro diz que não está “preocupado com a questão indígena, mas com as questões indígenas no plural”, e, assim, pode desnudar o pensamento ameríndio, descobrindo-o dos olhos etnocêntricos (muito presentes na antropologia) e da necessidade – sempre cientifica, racional e profissional – de categorizar, de acordo com a nossa linguagem, aquilo que apreendemos da cultura (e conduta) alheia. O autor está preocupado com as questões que os índios se colocam, a fim de alterar o pensamento Ocidental, confrontando-o com questões outras que, por serem “humanas” (somos todos seres humanos), são virtuais para todos os povos – na tentativa de um contato com um “outro” sempre possível, mesmo que ausente de maneira efetiva.



Traçando mais relações


Podemos dizer que o aluno está em desvantagem (no que diz respeito a relações de poder) quanto ao professor, já que, aos olhos da sua sociedade, além de estar passando pela fase da adolescência, não foi ainda completamente socializado. Ele é, assim, um selvagem. Entretanto, e por este motivo, ele pode transitar pelos diferentes sentidos da palavra “descobrir”, latentes ou não. Ele brinca e se aproveita do fato, causando reações no professor.

Os índios, vistos como selvagens pela cultura do antropólogo, são subordinados, em termos de poder, pela mesma, mas despertam para o antropólogo novas questões, latentes ou não em sua cultura, desencadeando nele um novo tipo de pensamento.

Além disso, a questão posta por Leach – que foi marginalizado pela academia britânica, sendo considerado um “enfant terrible” pelo meio antropológico -, sendo muito "boa para pensar", ajudou tanto Kuper quanto Goldman a desenvolverem teorias e enunciados.

Os meus colegas e eu, por nosso turno, confusos e em crises, nos animamos com a questão de Leach, e em Goldman e Kuper fomos buscar uma resposta para ela, já que parece um tanto desmotivador estudar algo que não se sabe bem o que é.



Eduardo Viveiros de Castro, por Larissa B.

Conclusão


Refazendo o trajeto que me levou a compreender a piada, nos anos de minha entrada na adolescência, percebi que, talvez, o que faltava para que eu entendesse melhor a questão de Leach, a antropologia de Eduardo Viveiros de Castro e, principalmente, o texto de Marcio Goldman, quando me iniciava na carreira das Ciências Sociais, era inverter os significados explícitos do enunciado de Leach, trazendo à tona os seus significados latentes. – Afinal de contas, eu me colocara o mesmo dilema alguns anos antes.

A solução encontrada (a de levantar a tanguinha do pensamento indígena, para que fossem postas à vista as suas questões) poderia ser um sinal de motivação nas mentes (sempre) entediadas dos alunos, provocando, senão o riso divertido e infantil, inquietações interessantes e interativas, tanto em questões quanto em experiências que são, no mínimo, "boas para pensar".

E não é tudo. Se os portugueses da história contada pelo aluno chegaram ao Pau Brasil ao levantar a tanguinha dos índios, Eduardo Viveiros de Castro fez, de certa forma, a operação inversa: foi, em parte, ao entrar em contato com o Pau Brasil de Oswald de Andrade que ele pôde ver a tanguinha do pensamento ameríndio.

Com isto, concluo a minha reflexão – confusa, irresponsável e cheia de sacações meramente intuitivas. E foi na busca de acabar com o tédio que eu, uma jovem estudante de ciências sociais – academicamente não domesticada, selvagem portanto –, arrisquei ser inconseqüente e brinquei com os termos, seus significados e suas relações.



Caricatura de M. Goldman feita no Colóquio Pierre Clastres (Sesc/SP - 2009)






Notas:

(*) Este texto, escrito em uma noite de insônia na cidade de Belo Horizonte, foi idealizado durante a leitura massante do chatíssimo livro de Stuart Hall, "Identidade Cultural na Pós-Modernidade". Um subtítulo possível para ele, porém muito limitador, seria: "Notas sobre o tédio".

1 - Estou ciente de que o ato de contar a piada é também uma experiência e que o ato de levantar a tanga é também representado em termos de linguagem.

2 - Provavelmente esta é a maneira etnocêntrica do aluno de imaginar os fatos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Portador



Antonio Candido



É preciso afastar, em relação a pensadores como Nietzsche, o conceito de guerra, propagandístico ou ingênuo, que o encara como uma espécie de Rosenberg mais fino e procura ver no seu pensamento o precursor do nazismo. Esse antipangermanista con­victo deve ser considerado o que realmente é: um dos maiores inspi­radores do mundo moderno, cuja lição, longe de estar exaurida, pode servir de guia a muitos problemas do humanismo contemporâneo.

Mesmo rejeitando o conteúdo das suas idéias, devemos reter e ponderar a sua técnica de pensamento, como propedêutica à supe­ração das condições individuais. “O homem é um ente que deve ser ultrapassado”: disse ele; e o que propõe é ultrapassar incessantemente o ser de conjuntura, que somos num dado momento, a fim de buscar estados mais completos de humanização. Talvez pudéssemos indicar os rumos da sua propedêutica dizendo que visa a uma expansão mais completa das energias de que somos portadores, e nesse sentido é elucidativa a preocupação de ascese, de exercício preparatório, que atravessa toda a sua obra. Por isso invoca ou sugere uma certa dureza e a abolição da autocomplacência: ver duro e cru, em si e nos outros, para ser capaz de ver justo e bom, posto que justiça e bon­dade repousam sobre a energia com que superamos as injunções, as normas cristalizadas, tudo enfim que tende a imobilizar o ser em posições já atingidas e esvaziadas de conteúdo vivo. O que é tacita­mente aceito por nós; o que recebemos e praticamos sem atritos in­ternos e externos, sem ter sido por nós conquistado, mas recebido de fora para dentro, é como algo que nos foi dado; são dados que incor­poramos à rotina, reverenciamos passivamente e se tornam peias ao desenvolvimento pessoal e coletivo. Ora, para que certos princípios, como a justiça e a bondade, possam atuar e enriquecer, é preciso que surjam como algo que obtivemos ativamente a partir da superação dos dados. "Obtém a ti mesmo" - é o conselho nietzschiano que o velho Egeu dá ao filho, no Teseu, de Gide. Para essa conquista das mais lídimas virtualidades do ser é que Nietzsche ensina a combater a complacência, a mornidão das posições adquiridas, que o como­dismo intitula moral, ou outra coisa bem soante. Na sua concepção há uma luta permanente entre a vida que se afirma e a que vegeta; parecia-lhe que esta era acoroçoada pelos valores rotinizados da civi­lização cristã e burguesa.

Realmente, se submetermos à análise rigorosa a maneira por que damos abrigo aos valores espirituais, veremos que em nossa atitude há mais de comodismo e flacidez moral do que propriamente crença ativa e fecundante. Aceitamos por via de integração, participação submissa no grupo, tendendo a transformar os gestos em simples repetição automática. E fazemos isso para evitar as aventuras da per­sonalidade, as grandes cartadas da vida, julgando pôr em prática va­lores conquistados por nós mesmos. Ora, a obra de Nietzsche nos pretende sacudir, arrancar deste torpor, mostrando as maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos em vez de nos afirmarmos. Encarada assim, a exaltação do homem vital e sem preconceitos vale, de um lado, como retificação do huma­nitarismo freqüentemente ingênuo do século XIX; de outro, como reivindicação da complexidade do homem, contra certas versões racionalistas e simplificadoras.

Com efeito, ele afirma longamente em sua obra (de modo quase sistemático na primeira parte de Além do bem e do mal, por exemplo) que o homem é mais complexo do que supõem as normas e con­venções. Bem antes das modernas correntes da psicologia, analisou a força e importância dos impulsos de domínio e submissão, con­cluindo que há em nós um animal solto que também compõe a per­sonalidade e influi na conduta. Naquela obra, insiste sobre a pre­sença, no tecido da vida humana, dessas componentes que a moral e a convenção procuram eliminar, depois de as haverem condenado.

A sua teoria da consciência como superfície, afloramento de obs­curidades que não se pressentem, anuncia a psicanálise, como podemos ver nas longas exposições da Vontade de poderio. Sob este ângulo, e apesar do desvirtuamento da expressão, o super-homem aparece como tipo superiormente humano, - um ente que consegue manifestar certas forças de vida, mutiladas em outros por causa da noção parcial que a psicologia e a moral convencionais oferecem de nós. Em meio à hipocrisia, à debilidade da consciência na burguesia européia do fim do século, ao humanitarismo manhoso com que procurava adormecer o sentimento de culpa, Nietzsche assume por vezes uma estatura de justiceiro. E um exemplo da ironia que espreita na posteridade as idéias dos filósofos é o fato de muitas dessas vir­tudes de dureza propedêutica terem sido encarnadas, no século xx, por uma raça de homens que ele sempre considerou progênie de escravos. Na elite revolucionária que implantou o socialismo na Rússia, encontravam-se, como a realização impressionante duma profecia, as qualidades de implacável retidão que atribui, em Vontade de poderio, ao "Legislador do Futuro", - que poda sem dó a fim de favorecer a expansão plena, e cuja dureza aparente é, no fundo, amor construtivo pelos homens.

Nele, porém, esta atitude só adquire significado reposta no con­junto da obra, - naquela mistura, tão sua, de fervor e irreverência, destruição raivosa e júbilo construtivo, que é a única possibilidade do nosso tempo e ele anteviu como profeta. Para a opinião domi­nante, a sua crítica violenta fez dele um personagem incômodo, ante o qual se fecham as portas da cidade, como as que, na parábola final de Humano, demasiado humano, rejeitam o peregrino para a noite do deserto. Ele vinha romper uma série de hábitos tacitamente acei­tos, e mostrar que a própria filosofia não dava mais conta das obri­gações para com a vida.

Talvez se possa dizer, com efeito, que a partir do século XVIII e até o nosso, ela cuidou mais da natureza do espírito e das condições do seu funcionamento, que do seu caráter de aspecto da atividade hu­mana total. Doutro lado, analisou de preferência tudo que condi­ciona e resulta do comportamento; raras vezes desceu às suas raízes vivas. Semelhante tarefa coube não raro à arte, cuja importância como forma de conhecimento não decresceu no mundo moderno, como se poderia pensar à primeira vista. A acuidade psicológica, por exemplo, não se confunde com a competência dos especialistas, e deve ser buscada menos neles do que em obras como as de Dostoievski, Proust, Pirandello ou Kafka; e não é de estranhar que o maior psicólogo do nosso tempo, Freud, seja uma espécie de ponte entre o mundo da arte e o da ciência; entre os processos positivos de análise e a intuição estética.

Nietzsche se situa no universo dos psicólogos artistas, e daí de­corre o significado central da sua obra. Enquanto algumas e por muitos lados melhores tendências do pensamento oitocentista pro­curavam resolver o problema da vida em sociedade criticando as condições de existência, ele tentou atingir diretamente o núcleo da personalidade. Se Marx ensaiava transmudar os valores sociais no que têm de coletivo, ele ensaiou uma transmutação do ângulo psi­cológico, - do homem tomado como unidade duma espécie, pela qual é decisivamente marcado, sem desconhecer, é claro, todo o equipamento de civilização que intervém no processo. São atitudes que se completam, pois não basta rejeitar a herança burguesa no nível da produção e das ideologias; é preciso pesquisar o subsolo pessoal do homem moderno tomado como indivíduo, revolvendo as convenções que a ele se incorporam e sobre as quais assenta a sua mentalidade.

Daí a conseqüente transmutação dos valores morais. Discípulo dos grandes analistas franceses, apaixonado de Stendhal e Dostoievski, dando uma sentença de Pascal por toda a metafísica alemã, continua os grandes investigadores da conduta, concebida como arte. O seu objetivo é lançar as bases de uma nova ética, acessível aos homens que se obtêm, - homens superiores que alargarão até os outros aquilo que conquistaram penosamente, cauterizando em si a herança de uma ci­vilização desvirtuada. "É certo que todos nós temos laços e afinidades que nos ligam ao santo, assim como um parentesco espiritual nos vincula ao filósofo e ao artista”, - diz numa das Considerações intem­pestivas. Em conseqüência, todo progresso no sentido da realização do super-homem significa riqueza coletiva, na medida em que atuam essas afinidades secretas que, ligando-o a todos, a todos enriquecem pela comunicação da seiva.

Para favorecer o aparecimento dos homens superiores, é preciso alterar o modo de encarar a vida e o conhecimento. O ideal nie­tzschiano seria o pensador que passeia livremente pela vida e recusa considerar a atividade criadora uma obrigação intelectual; o homem que, para fecundar a si e aos outros, suprime o hiato existente as mais das vezes entre conhecer e viver.

No belo trecho final d'A irreligião do futuro, Guyau chama ao filó­sofo - amigo do desconhecido: cet ami de l'inconnu. Ele é, com efeito, irmão do aventureiro, e não deve renegar o parentesco vivificante. Enquanto um se desapega da estabilidade e da rotina para obter em torno de si a mudança permanente das pessoas, lugares ou situações, outro opera de maneira semelhante no terreno do espírito, jogando fora convicções, crenças, noções, para obter alguma coisa nova ao cabo dessas rejeições múltiplas e por vezes fatais. Ambos atiram lenha à fogueira, aquecendo-se ao calor de coisas arrancadas à sua norma de vida: fogueira da existência ou fogueira do pensamento. Em muitos casos, ambas.


Vindo após séculos de filosofia catedrática, Nietzsche se revoltou violentamente contra a mutilação do espírito de aventura pela ofi­cialização das doutrinas. E a seu modo foi um aventureiro, não só na existência agitada e ambulante, à busca de lugares novos, emoções renovadas, (como alguém que necessita atritar-se com o mundo para despedir faíscas de vida), mas também no pensamento, à busca de ângulos novos, posições inexploradas, renovando sem parar as técnicas do conhecimento. A intervenção feliz de um gênio familiar impediu sempre as suas tentativas de amarrar as idéias em sistemas amplos e fechados (1). Exprimiu-se de preferência em trechos breves, aforismos e cânticos, a fim de que tudo o que borbulha não fosse canalizado pelo desenho geométrico dos tratados; e para que a filosofia não renunciasse ao privilégio da permanente aventura, a troco da estabilidade que se obtém fechando os olhos ante a fuga vertiginosa das coisas. O tipo de pensador nietzschiano é o Peregrino, o Wanderer, cuja sombra se projeta pelos quatro cantos e nunca vende a alma ao estável, ao tranqüilo, porque deseja manter-se fiel ao desconhecido, enfrentando-o com a coragem da aventura. A men­cionada página final de Humano, demasiado humano (1ª parte) define este repto permanente da filosofia, e é das mais belas que se escreveram sobre o destino do pensador, rejeitando a segurança ilu­sória de que se nutrem os homens médios, para não permanecer de olhos baixos, cegos em meio à vida que estua no desconhecido, ofe­recendo aventuras que glorificam e consomem:

“Quem atingiu dalgum modo a liberdade da razão, não se pode considerar na terra outra coisa que um Peregrino, embora não viajante rumando para uma meta final, - pois esta não existe. Contemplará e terá os olhos abertos para tudo o que acontece no mundo; não ligará o coração em definitivo a nada de único; deve haver nele algo erradio, pois a sua alegria está no mutável e no inconstante. Por certo cairão noites penosas sobre um homem desses, - quando estiver cansado e encontrar fechadas as portas da cidade, que lhe deveria dar repouso. Pode ser, ainda mais, que o deserto chegue até elas, como no Oriente, e as feras ululem, ora perto, ora longe, e um vento forte se eleve, e os salteadores lhe roubem os animais de carga. Desce então uma noite terrível, como um segundo deserto no deserto, e o Peregrino se sentirá exausto no coração. Quando o sol levantar, abrasando como a divindade da ira, abre-se a cidade, e nas faces dos habitantes ele verá talvez mais deserto, mais sujeira, mais embuste e mais insegurança do que fora de portas, - e o dia será quase pior do que a noite. Isto pode, na verdade, ocorrer a um Peregrino; mas depois virão, como recompensa, manhãs deleitosas, noutra paragem e noutro dia, onde, através do dilúculo, verá bandos de musas bailarem perto, na névoa das montanhas; onde, em seguida, quando passear à sombra das árvores, na serenidade da manhã, cair-lhe-ão, dentre os ramos e a folhagem, coisas boas e claras, dádivas dos espíritos livres, que se acomodam bem, como ele, nos montes, florestas e solidões, e são, como ele, de maneira ora alegre, ora pensativa, pe­regrinos e filósofos. Oriundos do mistério da madrugada, pensam no que pode fazer tão pura, luminosa, jovialmente transfigurada a fisionomia do dia entre a décima e a décima segunda pancada do sino: andam a buscar a Filosofia da Manhã.”

Sob esta roupagem alegórica, sob a graça deste estilo a que a tradução retira o aspecto por assim dizer miraculoso, Nietzsche é eminentemente um educador. Propõe sem cessar, como aqui, uma série de técnicas libertadoras, levando-nos ao paradoxo de pensar, como Gide, nos Pretextos, que a sua "influência (...) importa mais do que a sua obra". Talvez seja verdade, grata a quem exclamou na Gaia Ciência: "Para que serve um livro que não for capaz de nos trans­portar além dos livros?" Os seus conduzem para o terreno da aven­tura espiritual; livros de movimento, que têm um pacto misterioso com a dança, elemento-chave do seu pensamento:

“Há escritores que, pelo fato de representarem o impossível como possível, e falarem do que é moral e genial como se ambos não passassem de fantasia, capricho, provocam um sentimento de alegre liberdade, como se o homem se pusesse sobre a ponta dos pés e, graças a um júbilo interior, fosse obrigado literalmente a dançar." (Humano, demasiado humano)

É claro que os seus livros, que ensinam a dançar, não emanam de um filósofo profissional, mas de alguém bastante acima do que nos habituamos a conceber deste modo. Como poucos, em nosso tempo, é um portador de valores, graças ao qual o conhecimento se encarna e flui no gesto de vida. "Aqui, a certeza é um jogo; dir-se-ia que o conhecimento encontrou o seu ato, e que de repente a inteligência aceita as graças espontâneas.” (Valéry)

Há, com efeito, seres portadores, que podemos ou não encontrar, na existência quotidiana e nas leituras que subjugam o espírito. Quando isto se dá, sentimos que eles iluminam bruscamente os cantos escuros do entendimento e, unificando os sentimentos desparelhados, revelam possibilidades de uma existência mais real. Os valores que trazem, eminentemente radioativos, nos trespassam, deixam translúcidos e não raro prontos para os raros heroísmos do ato e do pensamento. Geralmente, ficamos ofuscados um instante quando os vemos e, sem força para os receber, tergiversamos e nos desviamos deles. A opaci­dade se refaz, então, a mediania recobra o domínio e só resta a lem­brança, de efeitos variáveis. Os coevos lobrigavam chamas do inferno na barra da túnica de Dante; nos nossos olhos resta igualmente a nostalgia do reino perdido, como no soneto de Antero de Quental:

E assentado entre as formas imperfeitas,
Para sempre fiquei pálido e triste.

Os portadores, que eletrizaram um instante, por via da partici­pação misteriosa de que fala Nietzsche, esses, continuam, como ele próprio continuava, irrequietos e irremediáveis.




Entretanto, embora nos iluminemos apenas um instante e os por­tadores sigam, o que seria da vida e do pensamento se não houvesse oportunidades semelhantes? As idéias e valores existem ante nós como alvos inatingíveis, e o nosso destino é tender a eles. Por isso a vida é uma tendência sem fim, excetuados os momentos de plenitude que suspendem a corrente do tempo. Não obstante, enquanto per­manecermos de um lado, e os valores de outro, o esforço e a lucidez da nossa visão serão mais ou menos frouxos. Na vida, só sentimos a realidade dos valores a que tendemos, ou que pressentimos, quando nos pomos em contacto com certos intermediários, cuja função é encarná-los, como portadores que são. A abstração e o sentimento adquirem vida (la connaissance a trouvé son acte, diria Valéry) e somos capazes de sentir plenamente, viver os valores. Ao contrário da vida, que dispersa, os portadores condensam e unificam extraor­dinariamente; daí se imporem como um bloco e fazerem ver a vida como um bloco, que nos afasta por um momento da mediania e impõem uma necessidade quase desesperada de vida autêntica.

"Os homens necessitam constantemente de parteiras". A teoria do super-homem é o conjunto de técnicas necessárias, segundo Nietzsche, para formar estas parteiras de que fala. A profundidade do seu des­conhecido humanismo provém da decisão fundamental de nada conceber na vida se não for como encarnação de valor, corporizado na presença humana. E para encerrar estas notas sobre um dos maiores portadores do nosso tempo, nada mais oportuno que a citação de um dos seus escritos de mocidade:

“Os gregos eram o oposto de todos os realistas, porque, a falar verdade, só acreditavam na realidade dos homens e dos deuses, e consideravam a natureza inteira como uma espécie de disfarce, de mascarada e metamorfose desses homens-deuses. Para eles, o homem era a verdade e essência das coisas; o resto não passava de fenômeno e miragem.”

Na nossa época, ao se abrir a primeira fase da história em que será preciso reorganizar o mundo sem apelo ao divino, o que se poderia dizer de melhor para instalar o homem na sua pura humanidade?

Recuperemos Nietzsche.


Diário de São Paulo
/ 1946




NOTAS


1 - Hoje, após os trabalhos e a edição de Karl Schlechta, sabemos com certeza que a Vontade de poderio, como foi publicada, sobretudo nas últimas edições, chamadas completas, não passa duma ordenação arbitrária de fragmentos que não haviam sido destinados a qualquer obra sistemática. O sistema e suas implicações capciosas nasce­ram do interesse fraudulento de sua irmã e respectivos colaboradores, ingênuos ou cúmplices conscientes. (Nota de 1959)

Fonte:
Candido, Antonio. "O Portador" in: O Observador Literário, ed. Ouro sobe Azul. Rio de Janeiro, 2004.