quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Leminski e o haicai




"Quatro anos depois, Paulo Leminski lança Distraídos venceremos, sua última obra poética em vida. O livro reúne cerca de trinta poemetos na seção "KAWA CAUIM, desarranjos florais". Harmonizando o idioma da terra de Wa (Japão) com o tupi, Leminski erige, com a precisão de quem domina a carpintaria poética, um pequeno e comovente oratório para o haicai."




cortinas de seda

o vento entra

sem pedir licença


(Leminski)




Texto e poema extraídos do livro boa companhia: haicais.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sobre o materialismo



O materialismo deve ser uma forma de idealismo, já que está errado - também.


(Marshall Sahlins - Esperando Foucault, ainda - pg. 8)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Chuva de Primavera



春雨やものがたりゆく蓑と傘  蕪村

harusame ya monogatari yuku mino to kasa

A viva conversa
Da capa e do guarda-chuva —
Chuva de primavera.

Buson




Extraído de: http://www.kakinet.com/caqui/antojapp.shtml

sábado, 28 de novembro de 2009

Outrem


"Pode ser absurdo que uma antropóloga social sugira ser possível imaginar um povo que não tenha sociedade. Contudo, o argumento deste livro é que, por mais útil para a análise que o conceito de sociedade possa ser, não justificaremos seu uso apelando para as contrapartes nativas. Na verdade, os antropólogos deveriam ser os últimos a contemplar tal justificação. Intelectuais formados na tradição ocidental não podem realmente esperar encontrar nos outros a solução para problemas metafísicos do pensamento do Ocidente. Igualmente absurdo, se refletirmos sobre isso, é imaginar que os que não participam dessa tradição irão de alguma forma focalizar suas energias filosóficas sobre questões como as da 'relação' entre a sociedade e o indivíduo."

(Marilyn Strathern - O gênero da dádiva - pg. 27)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Homenagem a Lévi-Strauss na USP


Alunos da USP homenageiam Lévi-Strauss com Selvagens Trópicos, festa de despedida e aniversário

Nada de chororô ou liturgia. O que alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) escolheram para homenagear um dos mais ilustres ex-professores da casa, Claude Lévi-Strauss, que faleceu no último dia 30 de outubro e faria aniversário no dia 28 de novembro, próximo sábado, foi realizar uma festança gratuita, regada a cerveja vendida a R$ 1,50 e animada por sons bem brasileiros.

O nome do evento, Selvagens Trópicos, faz referência ao livro "Tristes Trópicos", publicado pelo antropólogo e filósofo francês em 1955 - uma etnografia romanceada que narra a experiência do autor entre grupos indígenas brasileiros.

O show da banda Totens & Tabus, formada por professores e alunos da Universidade de São Paulo, promete experimentos musicais intrigantes. Um samba-enredo para Lévi-Strauss, talvez? Ou uma bossa nova em Bororo, quem sabe? De qualquer forma, não será algo que ocorre ordinariamente nos corredores da Cidade Universitária.

Entrando no jogo, as garotas Jamille Pinheiro, Larissa Barcellos e Nana Ribeiro cuidam da discotecagem. Tropicalistas como Caetano Veloso, Os Mutantes e Tom Zé devem dar o tom no repertório, além do soul funk de Tim Maia, o sambalanço de Jorge Ben Jor e outras batucadas, acústicas e eletrônicas.

Serviço
Selvagens Trópicos
Data: 27/11, sexta-feira
Horário: 22h - ******* IMPORTANTE: Não-alunos da Universidade de São Paulo devem chegar à Cidade Universitária antes das 20h. ******
Local: Espaço Verde, no Prédio de Ciências Socias da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)
Endereço: Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, Cidade Universitária - São Paulo/SP
Cerveja a R$ 1,50
Entrada Franca

Banda
Totens & Tabus

DJs
Jamille Pinheiro
Larissa Barcellos
Nana Ribeiro

Se você é jornalista e deseja mais informações a respeito da Selvagens Trópicos, entre em contato pelo e-mail selvagenstropicos@gmail.com

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss in memorian



Hoje o blog está de luto.

Por este motivo, reuni aqui alguns artigos a respeito do falecimento de Lévi-Strauss (cuja obra é bastante cidada neste blog, sendo de grande influência para os temas aqui tratados). Eu poderia ter colocado mais artigos e comentários, mas eram muitos e não tive tempo de ler todos. Quem quiser pode colocar links ou indicações de leitura na parte de comentários desta postagem.

Espero que gostem da homenagem, que, apesar de simples e tosca, é bastante sincera.



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Claude Lévi-Strauss, 1908-2009



From: Lydia Robin

Mes chers collègues,

J’ai la tristesse de vous annoncer la disparition de notre collègue Claude Lévi-Strauss, dans sa 101ème année.

Nous aurons prochainement l’occasion de nous retrouver pour lui rendre hommage.

Je vous prie de croire, mes chers collègues, en l’assurance de mes sentiments amicaux.

François Weil
—Lydia Robin
Secrétariat de la présidence
EHESS



Extraído de: Blog Savage Minds



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USP reconhece em Lévi-Strauss um de seus mais dignos fundadores


Valéria Dias / Agência USP


A reitora da USP, professora Suely Vilela, emitiu no início da noite desta terça-feira (3) uma mensagem em que expressa o pesar da instituição pela morte do etnólogo e antropólogo Claude Lévi-Strauss, ocorrido no último sábado, mas somente divulgado nesta terça-feira (3). Em 2 de setembro do ano passado, já em meio às comemorações dos 75 anos de fundação da USP, o Conselho Universitário (CO) aprovou a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao mestre reconhecido internacionalmente como o pai do estruturalismo. “A Universidade de São Paulo reconhece em Claude Lévi-Strauss um de seus mais dignos professores fundadores, sobretudo por ajudar decisivamente, por meio de sua competência, à construção da grandeza de nossa Instituição”, expressa a reitora no texto.

Para a professora Sylvia Caiuby Novaes, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, “a Universidade de São Paulo foi o início de uma carreira brilhante. Tivemos o privilégio de acolher Claude Lévi-Strauss”, aponta. Sylvia destaca que o professor contribuiu para que a antropologia passasse a ser uma disciplina de ponta dentro das Humanidades, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Outra grande contribuição do antropólogo foi, segundo ela, colocar o pensamento indígena em pé de igualdade com qualquer pensamento encontrado na filosofia ocidental. “É importante citar isso num momento tão anti-indígena como este que estamos vivendo agora”, diz.

Sylvia lembra que Lévi-Strauss era um professor desconhecido, tinha menos de 30 anos quando aceitou integrar a missão que deu origem à USP, em 1934. Formado em Direito e Filosofia, acabou se decidindo pela Antropologia a partir da experiência que viveu no Brasil. “Ele ficou fascinado pelas populações indígenas que encontrou na viagem que fez pelo País. Após 20 anos dessa viagem, em 1955, ele publicou Tristes Trópicos, onde percebemos que ele era um jovem apaixonado pelas coisas que encontrou ao longo desta viagem.”

Sobre a morte do intelectual, Sylvia afirma que “na cabeça da gente ele não morre, mesmo porque a obra dele continua”. Ela cita que o pensamento de Lévi-Strauss é muito presente em outros antropólogos, como o brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. “Existe uma continuidade na obra dele.”


Humanista


Para o professor Vagner Gonçalves da Silva, do Departamento de Antropologia da FFLCH, Claude Lévi-Strauss é um dos últimos grandes intelectuais do mundo, e pode ser enquadrado na categoria dos “gênios”. “A morte de Lévi-Strauss encerra um ciclo dos grandes heróis do pensamento. O mundo se tornará um lugar menos inteligente para se viver”, aponta, lembrando que além de sua importância enquanto teórico da antropologia, ele era também um grande humanista.

Vagner Gonçalves da Silva destaca que, em novembro de 1998, o Departamento de Antropologia fez uma homenagem aos 90 anos de Lévi-Strauss por meio do Seminário Lévi-Strauss e os 90 que reuniu especialistas na obra do intelectual francês. O material foi reunido e está disponível na internet. Segundo Silva, trata-se de um dos números mais requisitados da revista.

Em 2008, o departamento de Antropologia da FFLCH e o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da FFLCH promoveram o ciclo de conferências Sentidos de Lévi-Strauss, no centenário do antropólogo. De acordo com a professora Sylvia Caiuby Novaes, a idéia dos organizadores do evento é também publicar este material.



Extraído de: http://www4.usp.br/index.php/institucional/17839-usp-reconhece-em-levi-strauss-um-de-seus-mais-dignos-fundadores



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Morre aos 100 anos o antropólogo Lévi-Strauss


Do UOL Notícias*
Em São Paulo

Atualizado às 15h46


O etnólogo e antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss morreu na noite de sábado para domingo (1º) aos 100 anos, de acordo com um porta-voz da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris, na França. Ainda não há informações sobre a causa da morte do antropólogo. O falecimento foi divulgado pela editora Plon.

Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Lévi-Strauss foi um dos grandes pensadores do século 20. Ele, que completaria 101 anos no próximo dia 28, tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.

De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.

"Ele soube partir do empirismo para dialogar e colocar a antropologia em pé de igualdade com outras ciências humanas, como a filosofia. Lévi-Strauss é um autor fundamental", afirma Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da USP e mestre e doutor em Antropologia Social na área de etnologia indígena.

Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Lévi-Strauss foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.

O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de indígenas das Américas do Sul e do Norte.

O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".

A corrente estruturalista da antropologia, da qual Lévi-Strauss é o principal teórico, surgiu na década de 40 com uma proposta diferente da antropologia de viés funcionalista, predominante até então. "O funcionalismo se preocupava com o funcionamento de cada sociedade e em saber como as coisas existiam na sua função social. O estruturalismo queria saber do trabalho intelectual. Olhar para os povos indígenas e buscar uma racionalidade e uma reflexão propriamente nativa", diz Sztutman.

Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas linguísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano."

Ele abriu um caminho para pensar a filosofia indígena, valorizar o lado intelectual dos povos estudados, e não ficar naquela coisa 'nós (ocidentais) temos uma grande teoria e eles não'. Lévi-Strauss abriu caminho para valorizar o aspecto intelectual de outras populações", acrescenta Sztutman.

Lévi-Strauss não via o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.

Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integrou também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.

Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".






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Claude Lévi-Strauss (nota da ABA)

A ABA tem o pesar de informar a seus associados a morte de Claude Lévi-Strauss, um dos mais destacados antropólogos da atualidade, no dia 01 de novembro, aos 101 anos de idade.





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O album do UOL traz belas imagens do e com o antropólogo

Há também a matéria do Estadão

Alguns comentários acerca da morte de Lévi-Strauss e, embaixo, um link com entrevistas interessantes (O Globo)

Para quem lê em francês, há trambém os seguintes artigos:

Entrevista com Roland Pourtier, geógrafo da Sorbonne

Artigo no Le Monde, com comentários de diversas pessoas, incluindo Philippe Descola e Nicolas Sarkozy

Entrevista com Françoise Héritier

Lévi-Strauss e a literatura

Editorial do Le Monde

No site do Le Parisien há mais informações e comentários.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Pau Brasil (*)


Por: Larissa Barcellos


Pois bem, meus caros leitores, faço aqui uma pausa para refletir acerca de um problema que me foi colocado há exatamente um ano, quando eu estava lendo o livro “Antropólogos e a Antropologia”, de Adam Kuper. Nesta mesma época, assisti ao Grupo de Trabalho coordenado por Marcio Goldman e Eduardo Vargas na reunião anual da ANPOCS, sobre a Antropologia Pós-Social. Compareci, também, à palestra proferida por Eduardo Viveiros de Castro na USP, sobre Claude Lévi-Strauss. Estes dois últimos eventos representam, para mim, uma entrada mais efetiva na Antropologia.


O Problema


O ultimo capitulo do livro de Kuper tem como epígrafe a seguinte questão, levantada por Leach:

“Afinal, em nome dos céus, o que nós estamos tentando descobrir?”

Confesso que fiquei contente ao ler esta frase, já que acreditava que crises deste tipo eram usuais apenas nas mentes confusas dos estudantes de graduação.

A mesma pergunta reapareceu para mim alguns meses depois, em um texto de Marcio Goldman (que citava Kuper), com comentários que, na época, eu pouco entendi.


A Piada


Quando eu estava na escola, os meus amigos e eu gostávamos de interromper as aulas para contar aos professores uma piada infame, pelo simples prazer da interrupção, e na tentativa de quebrar o tédio.

Ela era assim:

Aluno: Como os portugueses descobriram o Pau Brasil?

Professor: Observando a mata brasileira.

Aluno: Não! Foi levantando a tanguinha dos índios.

Na primeira vez que ouvi esta piada eu não entendi o seu significado, por não ter percebido o trocadilho com a palavra “descobrir”. Foi somente alguns anos depois, ao contá-la a uma amiga, que pude compreender o que ela queria dizer.


A descoberta


O ponto em comum mais evidente entre estes dois enunciados é o uso da palavra “descobrir” – e eu me apoio aqui, de maneira in-conseqüente, na tradução para o português do livro de Kuper.

Na fala de Leach, a palavra tem o mesmo significado acionado pelo professor em sua resposta ao aluno. Este, entretanto, subverte o significado do verbo, dando graça à piada, e também demonstrando tanto as armadilhas interessantes da fala brasileira, quanto o contraste entre as maneiras usuais de se pensar através da linguagem, e suas alternativas possíveis e implícitas.

Proponho que façamos o mesmo com a questão posta por Leach e reproduzida tanto por Kuper quanto por Goldman, mas também por muitos dos meus colegas de curso. Acionemos, como o aluno, o significado outro da palavra “descobrir”, a partir da tradução da fala do antropólogo para o português. A questão que coloco aqui é: e se, ao invés de pensarmos como o professor, visualizarmos o seu significado à maneira do aluno?

Proponho, também, que pensemos o antropólogo enquanto etnógrafo – e Leach o era – interessado no contato com outras culturas e formas de viver. Poderíamos aproximá-lo, então, dos portugueses, os homens da ação (na piada), e não do discurso (no contar a piada), os homens da experiência (o levantar a tanga e ver o que está por baixo) que leva à linguagem (a historinha contada pelo aluno), e não da linguagem (piada) que leva à experiência (o imaginar a situação ou rir da piada) (1). O que, então, poderíamos estar tentando descobrir? Esta é uma ação particular e deve ser situada. Oras, estamos falando aqui do Brasil – e outro ponto em comum entre a pergunta e a piada é colocado: ambos foram enunciados em português e por/para os falantes desta língua – e isto, creio, basta por enquanto para que possamos situá-la no Brasil.

Leach era um antropólogo das ditas “sociedades primitivas”, sendo um dos responsáveis pela incorporação do pensamento de Lévi-Strauss na Inglaterra. Aproximo-o (ainda de maneira in-conseqüente) a Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro que também estuda as “sociedade primitivas” e é um dos responsáveis pela re-incorporação do pensamento de Lévi-Strauss no Brasil.

Podemos aproximar também a história do aluno à de Viveiros de Castro. Na primeira, os portugueses, ao chegarem até os índios, descobriram-nos de suas roupas (2) e perceberam o corpo de um “outro” ser humano, diferente dos seus. Eduardo Viveiros de Castro, por sua vez, foi à Amazônia e, ao se livrar de sua forma de ver os índios, das categorias que moldavam o seu pensamento, buscou ver aquelas a que os próprios índios se colocavam, percebendo uma forma de pensamento “outra”, diferente da sua.

Viveiros de Castro diz que não está “preocupado com a questão indígena, mas com as questões indígenas no plural”, e, assim, pode desnudar o pensamento ameríndio, descobrindo-o dos olhos etnocêntricos (muito presentes na antropologia) e da necessidade – sempre cientifica, racional e profissional – de categorizar, de acordo com a nossa linguagem, aquilo que apreendemos da cultura (e conduta) alheia. O autor está preocupado com as questões que os índios se colocam, a fim de alterar o pensamento Ocidental, confrontando-o com questões outras que, por serem “humanas” (somos todos seres humanos), são virtuais para todos os povos – na tentativa de um contato com um “outro” sempre possível, mesmo que ausente de maneira efetiva.



Traçando mais relações


Podemos dizer que o aluno está em desvantagem (no que diz respeito a relações de poder) quanto ao professor, já que, aos olhos da sua sociedade, além de estar passando pela fase da adolescência, não foi ainda completamente socializado. Ele é, assim, um selvagem. Entretanto, e por este motivo, ele pode transitar pelos diferentes sentidos da palavra “descobrir”, latentes ou não. Ele brinca e se aproveita do fato, causando reações no professor.

Os índios, vistos como selvagens pela cultura do antropólogo, são subordinados, em termos de poder, pela mesma, mas despertam para o antropólogo novas questões, latentes ou não em sua cultura, desencadeando nele um novo tipo de pensamento.

Além disso, a questão posta por Leach – que foi marginalizado pela academia britânica, sendo considerado um “enfant terrible” pelo meio antropológico -, sendo muito "boa para pensar", ajudou tanto Kuper quanto Goldman a desenvolverem teorias e enunciados.

Os meus colegas e eu, por nosso turno, confusos e em crises, nos animamos com a questão de Leach, e em Goldman e Kuper fomos buscar uma resposta para ela, já que parece um tanto desmotivador estudar algo que não se sabe bem o que é.



Eduardo Viveiros de Castro, por Larissa B.

Conclusão


Refazendo o trajeto que me levou a compreender a piada, nos anos de minha entrada na adolescência, percebi que, talvez, o que faltava para que eu entendesse melhor a questão de Leach, a antropologia de Eduardo Viveiros de Castro e, principalmente, o texto de Marcio Goldman, quando me iniciava na carreira das Ciências Sociais, era inverter os significados explícitos do enunciado de Leach, trazendo à tona os seus significados latentes. – Afinal de contas, eu me colocara o mesmo dilema alguns anos antes.

A solução encontrada (a de levantar a tanguinha do pensamento indígena, para que fossem postas à vista as suas questões) poderia ser um sinal de motivação nas mentes (sempre) entediadas dos alunos, provocando, senão o riso divertido e infantil, inquietações interessantes e interativas, tanto em questões quanto em experiências que são, no mínimo, "boas para pensar".

E não é tudo. Se os portugueses da história contada pelo aluno chegaram ao Pau Brasil ao levantar a tanguinha dos índios, Eduardo Viveiros de Castro fez, de certa forma, a operação inversa: foi, em parte, ao entrar em contato com o Pau Brasil de Oswald de Andrade que ele pôde ver a tanguinha do pensamento ameríndio.

Com isto, concluo a minha reflexão – confusa, irresponsável e cheia de sacações meramente intuitivas. E foi na busca de acabar com o tédio que eu, uma jovem estudante de ciências sociais – academicamente não domesticada, selvagem portanto –, arrisquei ser inconseqüente e brinquei com os termos, seus significados e suas relações.



Caricatura de M. Goldman feita no Colóquio Pierre Clastres (Sesc/SP - 2009)






Notas:

(*) Este texto, escrito em uma noite de insônia na cidade de Belo Horizonte, foi idealizado durante a leitura massante do chatíssimo livro de Stuart Hall, "Identidade Cultural na Pós-Modernidade". Um subtítulo possível para ele, porém muito limitador, seria: "Notas sobre o tédio".

1 - Estou ciente de que o ato de contar a piada é também uma experiência e que o ato de levantar a tanga é também representado em termos de linguagem.

2 - Provavelmente esta é a maneira etnocêntrica do aluno de imaginar os fatos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Portador



Antonio Candido



É preciso afastar, em relação a pensadores como Nietzsche, o conceito de guerra, propagandístico ou ingênuo, que o encara como uma espécie de Rosenberg mais fino e procura ver no seu pensamento o precursor do nazismo. Esse antipangermanista con­victo deve ser considerado o que realmente é: um dos maiores inspi­radores do mundo moderno, cuja lição, longe de estar exaurida, pode servir de guia a muitos problemas do humanismo contemporâneo.

Mesmo rejeitando o conteúdo das suas idéias, devemos reter e ponderar a sua técnica de pensamento, como propedêutica à supe­ração das condições individuais. “O homem é um ente que deve ser ultrapassado”: disse ele; e o que propõe é ultrapassar incessantemente o ser de conjuntura, que somos num dado momento, a fim de buscar estados mais completos de humanização. Talvez pudéssemos indicar os rumos da sua propedêutica dizendo que visa a uma expansão mais completa das energias de que somos portadores, e nesse sentido é elucidativa a preocupação de ascese, de exercício preparatório, que atravessa toda a sua obra. Por isso invoca ou sugere uma certa dureza e a abolição da autocomplacência: ver duro e cru, em si e nos outros, para ser capaz de ver justo e bom, posto que justiça e bon­dade repousam sobre a energia com que superamos as injunções, as normas cristalizadas, tudo enfim que tende a imobilizar o ser em posições já atingidas e esvaziadas de conteúdo vivo. O que é tacita­mente aceito por nós; o que recebemos e praticamos sem atritos in­ternos e externos, sem ter sido por nós conquistado, mas recebido de fora para dentro, é como algo que nos foi dado; são dados que incor­poramos à rotina, reverenciamos passivamente e se tornam peias ao desenvolvimento pessoal e coletivo. Ora, para que certos princípios, como a justiça e a bondade, possam atuar e enriquecer, é preciso que surjam como algo que obtivemos ativamente a partir da superação dos dados. "Obtém a ti mesmo" - é o conselho nietzschiano que o velho Egeu dá ao filho, no Teseu, de Gide. Para essa conquista das mais lídimas virtualidades do ser é que Nietzsche ensina a combater a complacência, a mornidão das posições adquiridas, que o como­dismo intitula moral, ou outra coisa bem soante. Na sua concepção há uma luta permanente entre a vida que se afirma e a que vegeta; parecia-lhe que esta era acoroçoada pelos valores rotinizados da civi­lização cristã e burguesa.

Realmente, se submetermos à análise rigorosa a maneira por que damos abrigo aos valores espirituais, veremos que em nossa atitude há mais de comodismo e flacidez moral do que propriamente crença ativa e fecundante. Aceitamos por via de integração, participação submissa no grupo, tendendo a transformar os gestos em simples repetição automática. E fazemos isso para evitar as aventuras da per­sonalidade, as grandes cartadas da vida, julgando pôr em prática va­lores conquistados por nós mesmos. Ora, a obra de Nietzsche nos pretende sacudir, arrancar deste torpor, mostrando as maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos em vez de nos afirmarmos. Encarada assim, a exaltação do homem vital e sem preconceitos vale, de um lado, como retificação do huma­nitarismo freqüentemente ingênuo do século XIX; de outro, como reivindicação da complexidade do homem, contra certas versões racionalistas e simplificadoras.

Com efeito, ele afirma longamente em sua obra (de modo quase sistemático na primeira parte de Além do bem e do mal, por exemplo) que o homem é mais complexo do que supõem as normas e con­venções. Bem antes das modernas correntes da psicologia, analisou a força e importância dos impulsos de domínio e submissão, con­cluindo que há em nós um animal solto que também compõe a per­sonalidade e influi na conduta. Naquela obra, insiste sobre a pre­sença, no tecido da vida humana, dessas componentes que a moral e a convenção procuram eliminar, depois de as haverem condenado.

A sua teoria da consciência como superfície, afloramento de obs­curidades que não se pressentem, anuncia a psicanálise, como podemos ver nas longas exposições da Vontade de poderio. Sob este ângulo, e apesar do desvirtuamento da expressão, o super-homem aparece como tipo superiormente humano, - um ente que consegue manifestar certas forças de vida, mutiladas em outros por causa da noção parcial que a psicologia e a moral convencionais oferecem de nós. Em meio à hipocrisia, à debilidade da consciência na burguesia européia do fim do século, ao humanitarismo manhoso com que procurava adormecer o sentimento de culpa, Nietzsche assume por vezes uma estatura de justiceiro. E um exemplo da ironia que espreita na posteridade as idéias dos filósofos é o fato de muitas dessas vir­tudes de dureza propedêutica terem sido encarnadas, no século xx, por uma raça de homens que ele sempre considerou progênie de escravos. Na elite revolucionária que implantou o socialismo na Rússia, encontravam-se, como a realização impressionante duma profecia, as qualidades de implacável retidão que atribui, em Vontade de poderio, ao "Legislador do Futuro", - que poda sem dó a fim de favorecer a expansão plena, e cuja dureza aparente é, no fundo, amor construtivo pelos homens.

Nele, porém, esta atitude só adquire significado reposta no con­junto da obra, - naquela mistura, tão sua, de fervor e irreverência, destruição raivosa e júbilo construtivo, que é a única possibilidade do nosso tempo e ele anteviu como profeta. Para a opinião domi­nante, a sua crítica violenta fez dele um personagem incômodo, ante o qual se fecham as portas da cidade, como as que, na parábola final de Humano, demasiado humano, rejeitam o peregrino para a noite do deserto. Ele vinha romper uma série de hábitos tacitamente acei­tos, e mostrar que a própria filosofia não dava mais conta das obri­gações para com a vida.

Talvez se possa dizer, com efeito, que a partir do século XVIII e até o nosso, ela cuidou mais da natureza do espírito e das condições do seu funcionamento, que do seu caráter de aspecto da atividade hu­mana total. Doutro lado, analisou de preferência tudo que condi­ciona e resulta do comportamento; raras vezes desceu às suas raízes vivas. Semelhante tarefa coube não raro à arte, cuja importância como forma de conhecimento não decresceu no mundo moderno, como se poderia pensar à primeira vista. A acuidade psicológica, por exemplo, não se confunde com a competência dos especialistas, e deve ser buscada menos neles do que em obras como as de Dostoievski, Proust, Pirandello ou Kafka; e não é de estranhar que o maior psicólogo do nosso tempo, Freud, seja uma espécie de ponte entre o mundo da arte e o da ciência; entre os processos positivos de análise e a intuição estética.

Nietzsche se situa no universo dos psicólogos artistas, e daí de­corre o significado central da sua obra. Enquanto algumas e por muitos lados melhores tendências do pensamento oitocentista pro­curavam resolver o problema da vida em sociedade criticando as condições de existência, ele tentou atingir diretamente o núcleo da personalidade. Se Marx ensaiava transmudar os valores sociais no que têm de coletivo, ele ensaiou uma transmutação do ângulo psi­cológico, - do homem tomado como unidade duma espécie, pela qual é decisivamente marcado, sem desconhecer, é claro, todo o equipamento de civilização que intervém no processo. São atitudes que se completam, pois não basta rejeitar a herança burguesa no nível da produção e das ideologias; é preciso pesquisar o subsolo pessoal do homem moderno tomado como indivíduo, revolvendo as convenções que a ele se incorporam e sobre as quais assenta a sua mentalidade.

Daí a conseqüente transmutação dos valores morais. Discípulo dos grandes analistas franceses, apaixonado de Stendhal e Dostoievski, dando uma sentença de Pascal por toda a metafísica alemã, continua os grandes investigadores da conduta, concebida como arte. O seu objetivo é lançar as bases de uma nova ética, acessível aos homens que se obtêm, - homens superiores que alargarão até os outros aquilo que conquistaram penosamente, cauterizando em si a herança de uma ci­vilização desvirtuada. "É certo que todos nós temos laços e afinidades que nos ligam ao santo, assim como um parentesco espiritual nos vincula ao filósofo e ao artista”, - diz numa das Considerações intem­pestivas. Em conseqüência, todo progresso no sentido da realização do super-homem significa riqueza coletiva, na medida em que atuam essas afinidades secretas que, ligando-o a todos, a todos enriquecem pela comunicação da seiva.

Para favorecer o aparecimento dos homens superiores, é preciso alterar o modo de encarar a vida e o conhecimento. O ideal nie­tzschiano seria o pensador que passeia livremente pela vida e recusa considerar a atividade criadora uma obrigação intelectual; o homem que, para fecundar a si e aos outros, suprime o hiato existente as mais das vezes entre conhecer e viver.

No belo trecho final d'A irreligião do futuro, Guyau chama ao filó­sofo - amigo do desconhecido: cet ami de l'inconnu. Ele é, com efeito, irmão do aventureiro, e não deve renegar o parentesco vivificante. Enquanto um se desapega da estabilidade e da rotina para obter em torno de si a mudança permanente das pessoas, lugares ou situações, outro opera de maneira semelhante no terreno do espírito, jogando fora convicções, crenças, noções, para obter alguma coisa nova ao cabo dessas rejeições múltiplas e por vezes fatais. Ambos atiram lenha à fogueira, aquecendo-se ao calor de coisas arrancadas à sua norma de vida: fogueira da existência ou fogueira do pensamento. Em muitos casos, ambas.


Vindo após séculos de filosofia catedrática, Nietzsche se revoltou violentamente contra a mutilação do espírito de aventura pela ofi­cialização das doutrinas. E a seu modo foi um aventureiro, não só na existência agitada e ambulante, à busca de lugares novos, emoções renovadas, (como alguém que necessita atritar-se com o mundo para despedir faíscas de vida), mas também no pensamento, à busca de ângulos novos, posições inexploradas, renovando sem parar as técnicas do conhecimento. A intervenção feliz de um gênio familiar impediu sempre as suas tentativas de amarrar as idéias em sistemas amplos e fechados (1). Exprimiu-se de preferência em trechos breves, aforismos e cânticos, a fim de que tudo o que borbulha não fosse canalizado pelo desenho geométrico dos tratados; e para que a filosofia não renunciasse ao privilégio da permanente aventura, a troco da estabilidade que se obtém fechando os olhos ante a fuga vertiginosa das coisas. O tipo de pensador nietzschiano é o Peregrino, o Wanderer, cuja sombra se projeta pelos quatro cantos e nunca vende a alma ao estável, ao tranqüilo, porque deseja manter-se fiel ao desconhecido, enfrentando-o com a coragem da aventura. A men­cionada página final de Humano, demasiado humano (1ª parte) define este repto permanente da filosofia, e é das mais belas que se escreveram sobre o destino do pensador, rejeitando a segurança ilu­sória de que se nutrem os homens médios, para não permanecer de olhos baixos, cegos em meio à vida que estua no desconhecido, ofe­recendo aventuras que glorificam e consomem:

“Quem atingiu dalgum modo a liberdade da razão, não se pode considerar na terra outra coisa que um Peregrino, embora não viajante rumando para uma meta final, - pois esta não existe. Contemplará e terá os olhos abertos para tudo o que acontece no mundo; não ligará o coração em definitivo a nada de único; deve haver nele algo erradio, pois a sua alegria está no mutável e no inconstante. Por certo cairão noites penosas sobre um homem desses, - quando estiver cansado e encontrar fechadas as portas da cidade, que lhe deveria dar repouso. Pode ser, ainda mais, que o deserto chegue até elas, como no Oriente, e as feras ululem, ora perto, ora longe, e um vento forte se eleve, e os salteadores lhe roubem os animais de carga. Desce então uma noite terrível, como um segundo deserto no deserto, e o Peregrino se sentirá exausto no coração. Quando o sol levantar, abrasando como a divindade da ira, abre-se a cidade, e nas faces dos habitantes ele verá talvez mais deserto, mais sujeira, mais embuste e mais insegurança do que fora de portas, - e o dia será quase pior do que a noite. Isto pode, na verdade, ocorrer a um Peregrino; mas depois virão, como recompensa, manhãs deleitosas, noutra paragem e noutro dia, onde, através do dilúculo, verá bandos de musas bailarem perto, na névoa das montanhas; onde, em seguida, quando passear à sombra das árvores, na serenidade da manhã, cair-lhe-ão, dentre os ramos e a folhagem, coisas boas e claras, dádivas dos espíritos livres, que se acomodam bem, como ele, nos montes, florestas e solidões, e são, como ele, de maneira ora alegre, ora pensativa, pe­regrinos e filósofos. Oriundos do mistério da madrugada, pensam no que pode fazer tão pura, luminosa, jovialmente transfigurada a fisionomia do dia entre a décima e a décima segunda pancada do sino: andam a buscar a Filosofia da Manhã.”

Sob esta roupagem alegórica, sob a graça deste estilo a que a tradução retira o aspecto por assim dizer miraculoso, Nietzsche é eminentemente um educador. Propõe sem cessar, como aqui, uma série de técnicas libertadoras, levando-nos ao paradoxo de pensar, como Gide, nos Pretextos, que a sua "influência (...) importa mais do que a sua obra". Talvez seja verdade, grata a quem exclamou na Gaia Ciência: "Para que serve um livro que não for capaz de nos trans­portar além dos livros?" Os seus conduzem para o terreno da aven­tura espiritual; livros de movimento, que têm um pacto misterioso com a dança, elemento-chave do seu pensamento:

“Há escritores que, pelo fato de representarem o impossível como possível, e falarem do que é moral e genial como se ambos não passassem de fantasia, capricho, provocam um sentimento de alegre liberdade, como se o homem se pusesse sobre a ponta dos pés e, graças a um júbilo interior, fosse obrigado literalmente a dançar." (Humano, demasiado humano)

É claro que os seus livros, que ensinam a dançar, não emanam de um filósofo profissional, mas de alguém bastante acima do que nos habituamos a conceber deste modo. Como poucos, em nosso tempo, é um portador de valores, graças ao qual o conhecimento se encarna e flui no gesto de vida. "Aqui, a certeza é um jogo; dir-se-ia que o conhecimento encontrou o seu ato, e que de repente a inteligência aceita as graças espontâneas.” (Valéry)

Há, com efeito, seres portadores, que podemos ou não encontrar, na existência quotidiana e nas leituras que subjugam o espírito. Quando isto se dá, sentimos que eles iluminam bruscamente os cantos escuros do entendimento e, unificando os sentimentos desparelhados, revelam possibilidades de uma existência mais real. Os valores que trazem, eminentemente radioativos, nos trespassam, deixam translúcidos e não raro prontos para os raros heroísmos do ato e do pensamento. Geralmente, ficamos ofuscados um instante quando os vemos e, sem força para os receber, tergiversamos e nos desviamos deles. A opaci­dade se refaz, então, a mediania recobra o domínio e só resta a lem­brança, de efeitos variáveis. Os coevos lobrigavam chamas do inferno na barra da túnica de Dante; nos nossos olhos resta igualmente a nostalgia do reino perdido, como no soneto de Antero de Quental:

E assentado entre as formas imperfeitas,
Para sempre fiquei pálido e triste.

Os portadores, que eletrizaram um instante, por via da partici­pação misteriosa de que fala Nietzsche, esses, continuam, como ele próprio continuava, irrequietos e irremediáveis.




Entretanto, embora nos iluminemos apenas um instante e os por­tadores sigam, o que seria da vida e do pensamento se não houvesse oportunidades semelhantes? As idéias e valores existem ante nós como alvos inatingíveis, e o nosso destino é tender a eles. Por isso a vida é uma tendência sem fim, excetuados os momentos de plenitude que suspendem a corrente do tempo. Não obstante, enquanto per­manecermos de um lado, e os valores de outro, o esforço e a lucidez da nossa visão serão mais ou menos frouxos. Na vida, só sentimos a realidade dos valores a que tendemos, ou que pressentimos, quando nos pomos em contacto com certos intermediários, cuja função é encarná-los, como portadores que são. A abstração e o sentimento adquirem vida (la connaissance a trouvé son acte, diria Valéry) e somos capazes de sentir plenamente, viver os valores. Ao contrário da vida, que dispersa, os portadores condensam e unificam extraor­dinariamente; daí se imporem como um bloco e fazerem ver a vida como um bloco, que nos afasta por um momento da mediania e impõem uma necessidade quase desesperada de vida autêntica.

"Os homens necessitam constantemente de parteiras". A teoria do super-homem é o conjunto de técnicas necessárias, segundo Nietzsche, para formar estas parteiras de que fala. A profundidade do seu des­conhecido humanismo provém da decisão fundamental de nada conceber na vida se não for como encarnação de valor, corporizado na presença humana. E para encerrar estas notas sobre um dos maiores portadores do nosso tempo, nada mais oportuno que a citação de um dos seus escritos de mocidade:

“Os gregos eram o oposto de todos os realistas, porque, a falar verdade, só acreditavam na realidade dos homens e dos deuses, e consideravam a natureza inteira como uma espécie de disfarce, de mascarada e metamorfose desses homens-deuses. Para eles, o homem era a verdade e essência das coisas; o resto não passava de fenômeno e miragem.”

Na nossa época, ao se abrir a primeira fase da história em que será preciso reorganizar o mundo sem apelo ao divino, o que se poderia dizer de melhor para instalar o homem na sua pura humanidade?

Recuperemos Nietzsche.


Diário de São Paulo
/ 1946




NOTAS


1 - Hoje, após os trabalhos e a edição de Karl Schlechta, sabemos com certeza que a Vontade de poderio, como foi publicada, sobretudo nas últimas edições, chamadas completas, não passa duma ordenação arbitrária de fragmentos que não haviam sido destinados a qualquer obra sistemática. O sistema e suas implicações capciosas nasce­ram do interesse fraudulento de sua irmã e respectivos colaboradores, ingênuos ou cúmplices conscientes. (Nota de 1959)

Fonte:
Candido, Antonio. "O Portador" in: O Observador Literário, ed. Ouro sobe Azul. Rio de Janeiro, 2004.

domingo, 13 de setembro de 2009

Do tédio ao mundo


A música punk nos ensinou que o tédio era um guia bem confiável para a identificação de todas as formas de conhecimento que eram irrelevantes para entender o mundo que viamos ao nosso redor e o nosso lugar nele.

(Peter Gow - An Amazonian myth and its history)





Tradução livre, feita para o blog. Abaixo, o orignial:


(…) punk music had taught us that boredom was a very reliable guide to the identification of all forms of knowledge that were irrelevant to understanding the world we saw around us and our places within it. (Oxford University Press, pg. 5)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Os ciclos da vida, para & por Lew Welch


For/From Lew

Lew Welch just turned up one day,
live as you and me. "Damn, Lew" I said,
"you didn't shoot yourself after all."
"Yes I did" he said,
and even then I felt the tingling down my back.
"Yes you did, too" I said—"I can feel it now."
"Yeah" he said,
"There's a basic fear between your world and
mine. I don't know why.
What I came to say was,
teach the children about the cycles.
The life cycles. All other cycles.
That's what it's all about, and it's all forgot."




(Gary Snyder)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Natureza & Cultura xeque-mate


Natureza & Cultura, versão americanista – Um sobrevoo (1)

Renato Sztutman (2)
Professor do Departamento de Antropologia da USP



O problema

A pergunta que orienta esta apresentação – e que pode soar ingênua – é a seguinte: o dualismo que se estabeleceu entre a natureza e a cultura – algo que, no mínimo, diz muito sobre nós mesmos, ocidentais, modernos, euroamericanos etc. – é bom para pensar as sociocosmologias ameríndias? Tendo em vista a produção americanista das últimas décadas podemos nos antecipar e afirmar que a resposta é, claramente, NÃO. O que interessa aqui passa a ser, justamente, como chegamos a esta resposta que, por seu turno, tampouco é unívoca.

Estabeleçamos que estas sociocosmologias – que não devem jamais ser concebidas como desvinculadas da prática, ou seja, que devem ser antes concebidas como cosmopráxis – apresentam alguns pontos em comum. Vejamos:

1) No tempo do mito, diz-se, animais, plantas e outros seres que tendemos a denominar não-humanos eram humanos, pois se comunicavam plenamente com os humanos, partilhando com eles tudo o que havia no mundo. Este ponto foi discutido por Lévi-Strauss em vários momentos de sua obra sobre a mitologia ameríndia, em especial na tetralogia Mitológicas, sobre a qual ele medita, de maneira bastante esclarecedora, na entrevista que concedeu a Didier Éribon (Lévi-Strauss & Éribon, 2005).

2) No tempo atual, embora diferenciados – sobretudo por suas formas corporais – estes animais, plantas e outros seres que tendemos a denominar não-humanos ainda se pensam como humanos – ainda portam algo como uma alma humana – e muitas vezes podem se revelar como tais. Isto consiste, por exemplo, na ideia de “animismo”, tal como apresentada por Philippe Descola, tanto em seu trabalho etnográfico sobre os Achuar (Jivaro) como em sua obra comparativa (Descola, 1986; 2005).

3) Ora, se esses “outros seres” podem se revelar aos humanos como humanos, isso se dá, muitas vezes, porque eles tendem a ver os humanos como não-humanos. Ou ainda, isso se dá devido à ideia de que a humanidade é uma questão de perspectiva; perspectiva que pode ser roubada, perdida. Eis o argumento central da reflexão desenvolvida por Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima sobre uma forma de pensamento por eles designada de “perspectivismo ameríndio”. Se esta reflexão teve sua origem na etnografia tupi, ela pôde ser vislumbrada nas terras baixas da América do Sul como um todo (Viveiros de Castro, 1986; 1998; 2002 e Lima, 2002; 2005).

4) Nessas paisagens ameríndias, pessoas como os xamãs – ou pajés, se quisermos manter a palavra de origem tupi – podem ter acesso a essa humanidade dos tais não-humanos, que se apresentam de variadas maneiras; por exemplo, como “donos das espécies naturais”, “donos da caça”, espíritos auxiliares ou patogênicos e daí em diante. Ora, esses xamãs – que não consistem exatamente em especialistas rituais, já que o xamanismo parece ser ali menos uma posição a ser ocupada do que uma qualidade (ou agência) a ser apropriada – definem-se, frequentemente, pelo fato de se submeterem a processos de metamorfose propiciados, por vezes, pelo uso de substâncias psicoativas como o tabaco e os alucinógenos.

5) Certos estados, como o sonho e o adoecimento, passíveis de serem experimentados por todos, constituem poderosos canais de comunicação com esses outros seres. Como a alucinação e a embriaguez, estes estados são sempre perigosos, pois implicam o risco de não retorno, de uma transformação mais radical. Se xamãs são aqueles que podem, com mais facilidade, gerenciar seu próprio trânsito, eles são necessários, muitas vezes, para intervir nos trânsitos malsucedidos de seus congêneres. Não por acaso, muitas vezes foram referidos na literatura etnológica como mediadores, diplomatas, curadores ou mesmo médicos.

Tendo em vista todas essas recorrências (aqui perpassadas por certa simplificação), é preciso tecer algumas ressalvas:

1) Estamos, aqui, diante de povos que praticam a caça como modo fundamental de “subsistência”, para não dizer de existência. Nesse sentido, a relação entre caçador e caça – relação de predação que compreende sempre dois termos, predador e presa – revela-se como a base para a concepção de outras modalidades de relação.

2) A relação descrita acima implica a necessidade de o caçador conhecer o animal a tal ponto que ele o conceba como sujeito pleno; que ele se imagine tomando a posição do animal.

3) A atribuição de humanidade, de subjetividade (alma? consciência?) a esses outros seres é, em larga medida, resultado de um processo de interação intensiva.

4) Não se trata, portanto, de uma simples projeção de ideias, mas de ideias que nascem na interação, na relação real (ou social) entre humanos e não-humanos.

5) O foco não recai apenas nos animais de caça. Há outros tipos de interação; por exemplo, com peixes, com plantas cultivadas, com plantas alucinógenas, com espíritos – muitas vezes “imagens”, “espectros”, “duplos” de espécies naturais ou mesmo de humanos, mortos, parentes ou inimigos –, ou até com artefatos.

6) Estas interações não envolvem, porém, todas as espécies, mas sobretudo as mais significativas na experiência. Por exemplo, os protótipos da predação – jaguares, sucuris e harpias – que fazem com que o homem ocupe o lugar de presa. E também os porcos-do-mato, especialmente as queixadas, que se emprestam para pensar a “condição humana”, uma vez que vivem de modo gregário e encontram-se, na floresta, em forte estado de vulnerabilidade. (3)


Diante deste panorama, a resposta para a pergunta colocada (se o dualismo natureza e cultura é bom para pensar as sociocosmologias ameríndias) é, provavelmente, NÃO. Ou, melhor: não é boa para pensar, ao menos, do modo pelo qual tendemos, os modernos, a conceitualizar esse dualismo. Isso pressupõe muitos níveis analíticos, e o problema se mostra mais complexo do que podemos imaginar. Se o dualismo natureza e cultura não é bom para pensar as sociocosmologias ameríndias, significa que eles(4) se furtam a fazer qualquer distinção deste tipo? Significa que eles não estabelecem distância alguma entre o que tomamos por natureza e por cultura, por humano e não-humano?

O dualismo natureza e cultura é algo bastante enfatizado pelos modernos no sentido de algo que organiza seu pensamento. Bruno Latour alega que a separação entre natureza e cultura (pensada por ele como “purificação” ou mesmo como “repartição ontológica”) está na base da constituição da ciência moderna e mesmo da modernidade como um todo, já que o “acordo constitucional” referido pelo autor diz respeito à separação decisiva, no século XVII, entre ciência e política; a primeira, engajada em revelar a natureza (alheia à ação humana) e a segunda em construir os coletivos humanos (para além das paixões humanas). Latour insiste em que “jamais fomos modernos”: jamais conseguimos separar natureza e sociedade. Fizemos, sim, proliferar os híbridos, ainda que tenhamos decidido mantê-los escondidos. O fato é que continuamos articulando em rede elementos heterogêneos. Latour alega que estamos caminhando para um mundo não-moderno – seja lá o que isso possa significar! E isso significa que o tal “acordo constitucional” passa por uma crise considerável, uma vez que deixamos de nos representar de modo adequado a partir dele (Latour, 1994). Tudo se passa como se o problema da insuficiência do dualismo natureza e cultura para pensar outros povos, entre eles os ameríndios, sinalizasse, também, a insuficiência de nossos modos de representação e, sobretudo, de nossos aparatos conceituais. Estes deveriam ser submetidos a uma espécie de “terapia”, de modo a se libertarem de projeções usuais.

Philippe Descola corrobora a ideia de uma crise da noção corrente de natureza, neste início do século XXI, e, por conseguinte, do naturalismo como ontologia que sustenta a existência de uma esfera capaz de transcender a ação humana (Latour, 2001). Essa crise (menos oficial do que oficiosa, para voltar aos termos de Latour) poderia ser deduzida a partir de diversos sintomas. Passemos por alguns, ainda que de modo superficial. Um deles, comenta Descola, pode se atestado nos estudos de etnoecologia que atentam para a inoperância da noção de “natureza virgem” ou “intocada”, uma vez que a ação humana interfere tanto na conformação dos ambientes como na produção contínua da biodiversidade. A floresta (muito se discutiu sobre este tema) submete-se a um processo constante de “antropização”. Em suma, populações como as ameríndias transformam, ativamente, o ambiente em que vivem e não podem ser reduzidas a sujeitos passivos diante de uma natureza intocável. Descola lança foco, também, sobre o desenvolvimento da psicologia experimental, que passa a verificar estados mentais tidos como propriamente humanos em populações tidas como não-humanas. Tais pesquisas autorizariam ideias como as de que podemos encontrar cultura e tecnologia entre os chipanzés, assim como linguagem entre baleias e golfinhos(5). Outro sintoma importante, agora em outro domínio, seria o avanço da biotecnologia no mundo moderno e, por conseguinte, a possibilidade de transformar o substrato biológico do homem; por exemplo, por meio de técnicas como a reprodução in vitro, a clonagem, a intervenção no genoma humano, o advento de homens-máquina ou ciborgues etc. Tal assunto tem sido bastante discutido na antropologia contemporânea, cada vez mais sensível ao problema da constituição das ciências modernas, bem como a questões de gênero e sexualidade, regiões em que o dualismo natureza e cultura parece vacilar. Toda essa discussão tem ganhado espaço especialmente nos trabalhos mais recentes de Marilyn Strathern, que se debruça sobre temas como parentesco euroamericano e sistemas de propriedade intelectual(6). Tudo se passa como se fatos internos à própria ciência e ao mundo moderno contribuissem para a crítica da separação moderna entre natureza e cultura e, nesse sentido, para a maior sensibilidade ou abertura aos ensinamentos, às lições das sociocosmologias ameríndias. Mas a maior sensibilidade ou abertura a esses ensinamentos não significa isenção de malentendidos. Afirmar que o mundo moderno vê-se invadido por todos esses sintomas e alegar a crise de sua ontologia naturalista (ou mononaturalista, como prefere Latour, seguindo Viveiros de Castro) não significa atestar a morte desta ontologia, que continua a operar em muitos domínios. Há imensa dificuldade de nos livrarmos da ideia de natureza como algo inato e, portanto, como algo exterior à ação humana. Essa é uma das constatações de Roy Wagner em sua comparação dos ideais da ciência com o pensamento dos povos da Nova Guiné (Wagner, 1977). Mesmo quando sustentamos a importância de pensar a responsabilidade do homem perante o mundo natural, como no caso dos movimentos ecologistas e ambientalistas – bastante variáveis entre si –, não conseguimos abrir mão deste princípio estruturador. Ora, nem todos os povos vêem-se atados a uma ontologia como a dos modernos. Outros povos, como os ameríndios, estariam acostumados a conceber o que chamamos de natureza como um domínio fortemente dependente da ação humana, em interação constante com o domínio humano. Desse modo, se quisermos manter o termo ocidental “natureza”, que nem sempre encontra tradução nas línguas indígenas, devemos lembrar que a “natureza” de uns não é a mesma que a “natureza” de outros e isso conduz a uma série de malentendidos. Um deles é, por exemplo, imputar aos povos ameríndios uma vocação ecológica, de inclinação conservacionista. Não há como negar que estes povos tenham desenvolvido uma relação menos destruidora com o “mundo natural”, bem como uma prática de conhecimento com relação a este mundo que tem muito a nos ensinar. O ponto é que o modo pelo qual eles conceitualizam suas relações com o, assim chamado, “mundo natural” é bem diferente da maneira pela qual nós, os modernos, tendemos a conceitualizar nossas relações. Note-se que Philippe Descola tornou-se responsável pela cadeira intitulada “Antropologia da Natureza”, no Collège de France. Com isso, ele pretende mostrar justamente que a natureza (o “mundo natural”) é definida de modo diverso conforme transitemos por diferentes ontologias, sendo o nosso naturalismo – convicto ou em crise – apenas uma delas.

Fugindo de dualismos, Descola percebe quatro modos de identificação entre o homem e o “mundo natural”, aos quais ele denomina ontologias. O naturalismo seria uma dessas ontologias, ao lado do animismo, do totemismo e do analogismo. O ponto é que todas elas coexistem, apesar das diferentes ênfases. Não seria errôneo afirmar que se entre os modernos predomina o naturalismo, entre os povos amazônicos predomina o animismo (Descola, 2005). O argumento de Descola é, grosso modo, o de que o dualismo natureza e cultura, tal como o concebemos, não pode se verificar nas sociocosmologias de boa parte das populações humanas, dentre elas, as ameríndias. Os modernos não fariam mais do que projetar sobre estas populações este dualismo que não lhes diz respeito. O argumento de Descola é debatido por autores como Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima, que geraram concomitantemente o conceito de perspectivismo. (Como veremos, estamos com Viveiros de Castro e Lima diante de uma teoria etnográfica, diante da construção de um conceito antropológico a partir do conceitual nativo(7)). Entendo, por meio da leitura que venho realizando da obra destes dois autores, que o perspectivismo não é um monismo e, sim, a reconceitualização de um dualismo. Porém, um “dualismo em perpétuo desequilíbrio” – este seria, aliás, um princípio que subjaz ao pensamento ameríndio, como propõe Lévi-Strauss (1993)(8). Em outras palavras, trata-se de um dualismo provisório, em que os pólos não são jamais fixos, devendo ser refeitos a cada novo momento.

Para Viveiros de Castro e Lima, antes de postular uma identificação entre humanos e o “mundo natural”, é preciso pensar nos modos pelos quais os ameríndios produzem afastamentos diferenciais, distanciamentos entre mundos. Como propõe Marilyn Strathern tendo em vista o caso de Mount Hagen (Terras Altas da Nova Guiné), separar esferas como o “doméstico” e o “selvagem” (tradução provisória que ela encontra para a oposição entre mbo e romi) como figura na língua destes povos – não significa atribuir ao pólo selvagem um caráter inerte, portanto passível de ser controlado pelos homens. O problema do dualismo natureza e cultura, para os modernos, seria, segundo Strathern, o esvaziamento de agência, de intencionalidade da “natureza”, que poderia, assim, ser controlada, manipulada pela “cultura”. Segundo Strathern, em vista de Hagen, teríamos de pensar, na contracorrente das noções que nos são caras, uma relação não-hierárquica – avessa, portanto, à gramática do controle – entre natureza e cultura. Os melanésios não estariam preocupados em postular a existência de um domínio inerte, alheio à ação e à intenção humanas. Eles não tornariam equivalentes selvagem e “natural”, doméstico e “cultural”(9). Que fazer, então, com a ideia de que isso que denominamos “mundo natural” possa ser pleno de intenção, consciência e agência? Eis o problema mais interessante.



Esquemas de identificação: animismo e totemismo

Sigamos as trilhas do conceito de animismo de Philippe Descola para, então, voltarmos ao conceito de perspectivismo, proposto por Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima. E passemos, apenas tangencialmente, pela controvérsia produzida entre eles(10).

A gênese do problema, em Descola, reside em sua monografia sobre os Achuar, povo jivaro da Amazônia equatoriana. Monografia esta voltada para o estudo da relação entre simbolismo e práxis entre formas de conceber (classificar, por exemplo) e de experimentar (viver) o “mundo natural”. Não se trata, para Descola, de se ater exclusivamente à dimensão do simbolismo, isto é, do “mundo natural” como fonte inesgotável de símbolos “bons para pensar” as relações sociais, mas, antes, de pensar a relação entre os homens e o “mundo natural” como uma relação social plena, real. Os Achuar dizem que as mulheres são mães das plantas que cultivam em suas roças; identificam-se, assim, com Nankui, criadora e “dona” destas plantas. Em suma, conceitualizam suas relações com estes seres em termos de consanguinidade. Já os homens concebem-se como cunhados dos animais de caça, traçando com eles relações de afinidade. Conclui-se, daí, que os seres que habitam o “mundo natural”, ao interagirem com os humanos, são tidos como parceiros sociais plenos.

Com efeito, entre os Achuar as relações de parentesco se estendem para o mundo não-humano, integrando a vida humana à ecologia. Nisso consiste a ideia de uma “natureza doméstica” (avessa, aliás, à de “natureza domesticada”): o prolongamento do mundo familiar ao “mundo natural”. A continuidade postulada entre humanos e espécies naturais se dá pela noção achuar de wakan, que Descola traduz, provisoriamente, por “alma”. Todos os seres do cosmos achuar possuem wakan, o que os faz gente (aents) e oferece indícios de sua humanidade anterior, atestada no tempo do mito, tempo que tende a retornar, irromper sobre o tempo atual. Wakan, alma, significa, antes de tudo, faculdade de entendimento e comunicação e, também, consciência, intencionalidade e agência. Se os homens se separaram das outras espécies no tempo do mito, se foram se diferenciando por meio de suas formas corporais e específicas, teria restado, ainda, a possibilidade de comunicação propiciada por uma miríade de encantamentos, designados como anents (Descola, 1986; 1993).

Descola partiu do caso achuar para pensar o animismo ameríndio de modo geral e, buscando um quadro comparativo bastante amplo, enfrentou a tarefa de inventariar os diferentes modos de identificação e relação entre o homem e o “mundo natural” ou, em outros termos, modos de identificação e relação entre os existentes. Todo este esforço culminaria na redação de seu livro Par-delà nature et culture, de 2005(11). Voltamos, aqui, à questão inicial desta apresentação: para Descola, o dualismo natureza e cultura que organiza o pensamento dos modernos não funciona em todo lugar; ou, ao menos, não do mesmo modo em cada lugar. Este dualismo partiria de exigências propriamente ocidentais, de uma filosofia moderna da natureza que parte, justamente, da ideia de uma natureza una e transcendente, capaz de englobar as culturas devendo, estas, serem tomadas sempre no plural. Descola propõe, a esse respeito, que pensemos em quatro ontologias diversas para dar conta desta identificação entre os existentes; entre o homem e o “mundo natural”. Haveria o naturalismo que predomina entre os modernos. Haveria o analogismo, que predomina em certas partes da África, na Mesoamérica, na Índia, na China, entre outros lugares. Haveria o totemismo, que predomina na Austrália e, finalmente, o animismo, tão presente na Amazônia, na Sibéria, na Ásia do Sul, em certas partes da Nova Guiné, alhures. Descola insiste em atentar para o fato de que tudo são tipos ideais, o mundo jamais podendo se reduzir a eles, uma vez que as condições para cada esquema de identificação já estariam todas dadas em cada caso. A coexistência entre esses esquemas jamais deixaria de operar sendo possível alegar, inclusive, que uns se mantém dominantes, ao passo que outros permanecem recessivos. Examinemos o problema do animismo, que é aquele que se destaca nas paisagens ameríndias.

Em primeiro lugar, Descola distingue o animismo como ontologia do totemismo como método de pensamento (como lógica classificatória) , tal como definido por Lévi-Strauss. Segundo Descola, Lévi-Strauss, em obras programáticas como O totemismo hoje e O pensamento selvagem, teria menosprezado essas ontologias e sobretudo esse aspecto da identificação e relação do homem com o “mundo natural”, em proveito da lógica classificatória, do dispositivo de estabelecimento de descontinuidades entre séries humanas e não-humanas. Em outras palavras, ele teria privilegiado o eixo horizontal da classificação dos existentes (que aposta nas descontinuidades) em detrimento do eixo vertical da “religião” (cujo alicerce reside na aposta em refazer o contínuo).

Em Par-delà nature et culture, Descola volta aos Ojibwa, povo de língua algonguina da América do Norte, de onde vem o termo ototeman (que significa “aquele de minha parentela”), do qual derivou a palavra (ou conceito) totem. Lembremos que a relação dos Ojibwa com o “mundo natural” foi discutida por Lévi-Strauss no primeiro capítulo de O totemismo hoje, no qual é apresentado o cruzamento de dois diferentes sistemas: o sistema totem e o sistema manido, o primeiro prestando-se a designar clãs patrilineares por meio de nomes de animais, o segundo atribuindo a cada indivíduo um “espírito guardião”, pautando-se por uma espécie de panteão sobrenatural algo hierarquizado. Guiado pela etnografia recente de Howell, Descola alega que para os Ojibwa, mais importante que o sistema totem é o sistema manido, que nada mais seria que um modo de identificação de tipo anímico, pressupondo uma relação de pessoa a pessoa entre um ente humano e um não-humano (relação efetuada, vale ressaltar, no plano do sonho). Para os Ojibwa, enfatiza Descola, os animais possuem alma, são pessoas; no entanto, eles diferem das pessoas humanas devido à sua forma física; à sua fisicalidade. Enfim, para Descola, o animismo como ontologia não é um totemismo, método de pensamento que opera pela lógica classificatória, pautado no paralelismo das séries humanas e não-humanas, no estabelecimento de descontinuidades. O totemismo, tal como definido por Lévi-Strauss é, em suma, um método de pensamento que opõe série natural e série cultural a partir do estabelecimento de “semelhanças entre diferenças”. Lembremos que, neste esquema, a diferença entre um animal X e um animal Y equivale à diferença entre um clã A e um clã B, o que não significa, de modo algum, que haja identificação ou relação real entre animal X e clã A, permanecendo, esta, na ordem da metáfora (Lévi-Strauss, 1987). Já o animismo, enfatizado por Descola, é um modo de identificação entre humanos e não-humanos por meio de uma interioridade compartilhada; sua alma.

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Tudo se passa, para Lévi-Strauss, como se pensar fosse estabelecer descontinuidades sobre o real, opor séries naturais a séries culturais, enquanto viver fosse estar imerso no contínuo. No último capítulo (5) de O totemismo hoje, “O totemismo de dentro”, Lévi-Strauss retoma uma pergunta lançada logo no início deste livro: “Por que, afinal, essa predileção por animais e plantas?”. No capítulo 4, “Rumo ao intelecto”, ele havia definido o totemismo como método de pensamento que coloca em homologia uma série natural e outra cultural. Ora, se parássemos aí perderíamos a dimensão do problema que aparece com toda força no referido capítulo final, quando o autor faz menção à identificação entre o homem e as espécies naturais evocando a noção de piedade – comiseração –, tal como proposta por Jean-Jacques Rousseau. E, antes mesmo de evocar Rousseau, já havia atentado para a ressonância entre o pensamento de um filósofo como Bergson e o pensamento dos Sioux, outro povo de língua algonquina. Isso porque ambos os pensamentos tomam as coisas e os seres como formas fixadas numa corrente de energia, caracterizada como “movente”. Com Bergson, em simbiose com os Sioux, podemos concluir que o contínuo e o descontínuo são, antes de tudo, dois aspectos inextrincáveis do real, não havendo como escolher entre eles, todo o esforço sendo o de torná-los perspectivas complementares.

Com Rousseau, em seguida, Lévi-Strauss alega que a fonte de todas as operações lógicas – passagem do animal ao humano, da natureza à cultura, do afetivo ao intelectual – está nessa identificação com Outrem; identificação que, talvez surpreendentemente, permita, justamente, a Distinção. Tudo se passa como no caso dos venenos, tão evocados nos volumes Mitológicas(12); venenos cujo cromatismo (reino dos pequenos intervalos, como reza a metáfora musical) produz um efeito diatônico, qual seja: o estabelecimento de novas distâncias, novas separações.

Essa ideia de identificação – que não é exatamente a mesma que encontramos em Descola – reaparece no final de A origem dos modos à mesa, terceiro volume das Mitológicas(13), no qual Lévi-Strauss tece considerações preciosas sobre certa filosofia moral que os ameríndios estendem ao “mundo natural”. Ou, melhor: reconhecem nele. Haveria ali, em outras palavras, uma moralidade que permearia a relação entre todos os existentes do cosmos e que decorreria do fato de que as pessoas sabem que animais, plantas e afins foram gente no tempo do mito e, de certo modo, continuam a sê-lo. Lévi-Strauss extrai daí um “humanismo bem ordenado” que não deixa de ser um pós-humanismo, já que se trata de um humanismo em que o homem – sujeito de todo conhecimento – dissolveu-se. Permitam-me citar um dos trechos finais da terceira Mitológicas, em que estas ideias se fazem evidentes:

“Neste século em que o homem teima em destruir inumeráveis formas de vida, depois de tantas sociedades cuja riqueza e diversidade constituíam desde tempos imemoriais seu maior patrimônio, nunca, com certeza, nunca foi mais necessário dizer, como o fazem os mitos, que um humanismo mais bem ordenado não começa por si mesmo. Coloca o mundo antes da vida, a vida antes do homem, o respeito pelos outros seres antes do amor próprio. E que mesmo uma estada de um ou dois milhões de anos nesta terra – já que todo modo há um dia de acabar – não pode servir de desculpa para uma espécie qualquer, nem a nossa, dela se apropriar como coisa e se comportar sem pudor ou moderação(14).”

Note-se que ao lado deste pós-humanismo reside uma espécie de cataclismologia que revela a ressonância entre o pensamento do autor e dos ameríndios que ele passou anos a estudar. O mundo há de se acabar e isso deverá ocorrer no momento em que esta moralidade que une todos os existentes for destituída de lugar. Como veremos, no final desta apresentação será impossível não remeter a postura lévi-straussiana ao discurso engenhoso de um xamã ameríndio, Davi Kopenawa Yanomami, preocupado com a desumanização da floresta.

Em outro ensaio, Lévi-Strauss insiste, rebatendo as acusações de idealismo frequentemente a ele lançadas por seus críticos, que os elementos do ambiente não são meros signos arbitrários nos mitos. Diferentemente, o autor reafirma o laço entre o homem e o “mundo natural” ao alegar que a natureza das coisas é de ordem êmica, sendo o espírito e o material empírico sobre o qual este trabalha estruturados do mesmo modo. O que permitiria ao homem pensar o mundo seria, assim, o fato de o mundo ser estruturado da mesma maneira que o homem. Nas palavras de Lévi-Strauss “reconhecer que o espírito não pode compreender o mundo senão porque é um produto e uma parte desse mundo não é pecar por mentalismo ou idealismo” (Lévi-Strauss, 1986. P.171). Haveria, nesta passagem, a negação da oposição entre espírito e matéria, bem como a ênfase em uma homologia entre o cérebro e o mundo. Trata-se, em outras palavras, da recusa de separar os estados de subjetividade e as propriedades do cosmos. Nesse sentido, a natureza não seria apenas “boa para pensar” – tal a vulgata extraída do capítulo 4 de O totemismo hoje –, ela seria antes a própria condição do pensamento. Como vemos, Lévi-Strauss se deixa impregnar pela filosofia moral veiculada nos mitos ameríndios para propor algo como uma nova ontologia em que espírito e mundo, homem e “mundo natural” não mais se destacam.

Poderíamos identificar em Lévi-Strauss uma tensão entre, de um lado, uma continuidade ontológica e, de outro, uma descontinuidade epistemológica entre humanos e não-humanos. Haveria, decerto, um duplo movimento no autor. Se em vários momentos o vemos afirmar a oposição natureza e cultura como condição de todo pensamento (no caso, de todo o simbolismo), em outros, o vemos propor justamente o contrário, ou seja, que só é possível pensar porque há uma identificação daquele que pensa com o mundo pensado e esta já seria uma relação social. Alguns autores refletiram longamente sobre essa tensão. O próprio Descola alega que haveria, em Lévi-Strauss, “duas naturezas”: aquela que permanece “boa para pensar” e outra, que se mantém homóloga ao espírito (Descola, 2004). Patrice Maniglier, por seu turno, vislumbra uma transformação algo cronológica na obra do autor que parte, em As estruturas elementares do parentesco, de um humanismo propriamente moderno, fundado na oposição entre natureza e cultura, para então dissolvê-lo, seja nos quatro volumes das Mitológicas, seja nos ensaios mais teóricos de O olhar distanciado (Maniglier, 2008) . Eduardo Viveiros de Castro, de sua parte, identifica um movimento a um só tempo sincrônico e diacrônico na obra de Lévi-Strauss, pois se há mesmo uma passagem das obras “pré-estruturalistas” (As estruturas elementares do parentesco, por exemplo – para as “pós-estruturalistas” – as Mitológicas, sobretudo), isso não exclui o fato de esta tensão ter estado sempre ali contida, mesmo nas primeiras obras(15). Tudo isso nos leva à questão, muito bem colocada por Beatriz Perrone-Moisés, de que não podemos desprezar a retórica de Lévi-Strauss, uma vez que este confessa, no final de História de lince, sua simpatia pela máxima montaigniana de que “toda a certeza tem a forma a priori de um contradição” (Perrone-Moisés, 2008).

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Voltemos, pois, aos autores americanistas recentes, que apostam mais firmemente no pólo da continuidade; na ideia de que o “mundo natural” não é apenas “bom para pensar”. E nesse ponto seguem os ensinamentos das cosmopráxis ameríndias. Pois o importante é refletir não apenas sobre como os ameríndios concebem a passagem da natureza para a cultura, mas também sobre como eles a vivem. Ora, essa passagem ocorre todos os dias; se dá no cotidiano e envolve ações. Como mostra Joanna Overing, o xamã piaroa tem de transformar diariamente a carne de caça em vegetal para evitar o canibalismo, afinal, os animais eram gente no tempo do mito e o tempo do mito atua no tempo atual (Overing, 1995).

Voltemos a Descola para, em seguida, retornar a Viveiros de Castro e, com ele, novamente a Lévi-Strauss.

Não satisfeito com a definição do totemismo como uma lógica classificatória, Descola volta à Austrália, paisagem do totemismo “clássico”, em que grupos de parentesco veem-se ligados a um epônimo animal ou vegetal. No que diz respeito à etnografia australianista, duas ordens de fenômenos devem ser distinguidas. Haveria o totemismo como lógica classificatória e, num plano diverso, o totemismo “propriamente dito”, qual seja: aquele que, à revelia da sugestão de Lévi-Strauss, opera como modo de identificação entre os homens e o “mundo natural”. Longe de ser uma ilusão, a ontologia totêmica, à diferença da animista, supõe a identificação entre humanos e não-humanos em termos tanto de interioridade como de fisicalidade(16). O totemismo australiano consiste, enquanto ontologia particular, na partilha de propriedades – fisiológicas e psicológicas – entre o totem (espécie natural) e os membros do grupo totêmico, grupo exogâmico no sentido clássico. As propriedades partilhadas por esses membros não são derivadas, necessariamente, da entidade epônima, sendo propriedades abstratas. Os membros do grupo totêmico partilham, então, características morais e materiais que definem para si uma essência identitária.

Em suma, totemismo e animismo não podem ser descritos como princípios universais, mas, sim, como ontologias particulares que expressam diferentes esquemas de identificação e relação entre os existentes. No totemismo, membros do grupo totêmico compartilham uma mesma humanidade e se conformam como coletividade que se relaciona com outras coletividades complementares, a exogamia permanecendo como uma regra entre elas. O princípio diferenciador entre os seres é, aqui, o próprio grupo totêmico. Já no animismo a condição humana seria estendida a todos os seres no cosmos que, por seu turno, se diferenciam por suas fisicalidades. O modelo de coletivos, aqui, não pode ser o de grupos exogâmicos, mas, sim, o de coletividades múltiplas e endogâmicas(17).

Com respeito ao princípio diferenciador do animismo, a fisicalidade, Descola remete à noção de perspectivismo, tal como apresentada por Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima. A vulgata do perspectivismo (deslindada por estes autores entre os ameríndios, e não como uma possibilidade ontológica geral) seria a seguinte: seres não-humanos que se veem sob forma humana deveriam ver os humanos sob forma não-humana, uma vez que a humanidade é uma posição e não uma substância, uma propriedade intrínseca a certa porção de seres. Um porco-do-mato, por exemplo, se vê como humano enquanto vê o humano como jaguar ou como espírito predador. Ora, todos esses existentes são, potencialmente, humanos (partilham a mesma condição de humanidade [humanity]) apesar de não serem todos da espécie humana (humankind) (18). São todos sujeitos dotados de comportamento, intencionalidade e consciência, estando inseridos em redes de parentesco e afinidade, fazendo festas, bebendo cauim, reportando-se a chefes, fazendo guerra, pintando e decorando seus corpos. O que está em jogo, aqui, portanto, é a diferença entre perspectivas, o que nos envia a uma “filosofia ameríndia da diferença”.

Relações diferenciantes: perspectivismo

A crítica à oposição natureza e cultura está presente tanto no animismo de Descola quanto no perspectivismo de Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima. Mas de maneiras bem diferentes. Se o primeiro se guia por uma ideia de (esquemas de) identificação, os últimos inspiram-se – parcialmente, ao menos – na filosofia deleuziana da diferença; da diferenciação(19).

Como já salientado, tanto Viveiros de Castro como Lima partiram de suas etnografias sobre povos tupi para chegar à conceitualização do perspectivismo ameríndio. Viveiros de Castro já reconhecia, entre os Araweté do sudeste do Pará, a intensa “troca de perspectivas”, menos entre animais e humanos do que entre matadores e inimigos, homens e deuses, já que o destino de todo ser humano araweté é um devir-deus, seja no posmorte (no caso da maioria dos vivos), seja pelo ato homicida (no caso dos matadores, guerreiros)(20). Lima, de sua parte, percebeu, entre os Yudjá do médio Xingu, que uma troca análoga de perspectivas se deslocava do plano da relação entre vivos e mortos – potencializada nas cauinagens – para o plano da relação entre caçadores e animais de caça (Lima, 2002 e 2005).

Inspirado pelas reflexões de Tânia Stolze Lima, que explora as diferenças entre os conceitos de animismo e perspectivismo(21), gostaria de atentar para um ponto: se a teoria do animismo refuta a interpretação lévi-straussiana do totemismo, a teoria do perspectivismo (antes de tudo uma teoria da teoria nativa, uma teoria etnográfica, vale ressaltar) se debruça sobre o problema da passagem da natureza à cultura; ou, melhor: do contínuo ao descontínuo e vice-versa, tal como ela aparece nas Mitológicas(22).

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A tetralogia de Lévi-Strauss persegue, através dos mitos ameríndios, a um só tempo, a operação das leis do Espírito (o tal “inconsciente estruturante” que, no entanto, vai perdendo terreno) e as formulações propriamente ameríndias quanto à passagem da natureza à cultura. Vemos, aqui, o interesse de Lévi-Strauss pelas filosofias ameríndias, sejam elas “filosofia moral”, “lógica das proposições”, “ideologia bipartida”, “filosofia quente” ou “metafísica da predação”(23). No final de L’homme nu, no entanto, Lévi-Strauss alega que a mitologia diz muito sobre a sociedade de onde provém e sobre o funcionamento do espírito humano e diz pouco sobre a ordem do mundo, a natureza do real e a origem do homem e seu destino. Nesse sentido, afirmar que os porcos são ou foram humanos diria pouco sobre os porcos e, menos ainda, sobre os humanos.

Segundo Viveiros de Castro, que lê Lévi-Strauss para além de Lévi-Strauss, essa constatação seria problemática e mesmo contraditória com relação ao conteúdo da tetralogia, visto que a explicitação do modo de operação do espírito humano já traria, em si, implícita, uma reflexão sobre a ordem do mundo. Em suas palavras, “o que eles [os ameríndios] dizem – e, se preferir o leitor, ensinam – é que não há por que escolher, pois não há como separar entre a natureza do real e o espírito humano, a ordem do mundo e o movimento da sociedade” (Viveiros de Castro, 2001 p.6). Nesse sentido, a ideia de “porco” iluminaria a de humano e a humanidade dos porcos diria muito sobre o conceito de humano para os índios.

Os mitos contidos nas Mitológicas falam da passagem da natureza para a cultura, ou melhor, do contínuo para o descontínuo. Os mitos falam de um tempo em que “os animais eram gente” e deixaram de sê-lo. Falam tanto de uma glória – a aquisição da cultura pelos homens – quanto de uma tragédia – a perda de comunicação entre os homens e os outros seres (animais, plantas e espíritos). As Mitológicas referem-se, em suma, a uma passagem da natureza para a cultura, mas que nunca se completa, podendo ser revertida. Referem-se ao perigo da volta ao estado de continuidade, à perda da condição humana pelos humanos. Como já discutido, Lévi-Strauss apresenta uma série de figuras do sensível – o arco-íris, os eclipses, as algazarras, os venenos – que tem por característica a conjunção de esferas separadas, como o céu e a terra, a noite e o dia etc.; todas elas caracterizadas pela metáfora musical do cromatismo (os pequenos intervalos, os semitons, os lusco-fuscos), que nos transporta a um território invadido pela confusão entre categorias “culturais” e “naturais”.

Haveria um paradoxo nas Mitológicas. De um lado, o contínuo é apresentado como caos, como regressão à natureza, à desordem. Os indígenas atribuem às figuras cromáticas um valor maléfico, alega Lévi-Strauss. De outro lado, algo de muito importante se perde com a passagem da natureza para a cultura; tamanha é a tragédia da incomunicabilidade. É neste cenário que aparece o xamanismo – sempre aliado ao uso do tabaco – como mediação necessária. Se, de modo geral, os mitos de O cru e o cozido (primeiro volume) (24) estão mais centrados no tema da passagem da natureza para a cultura, os de Do mel às cinzas (segundo volume) (25) discorrem sobre a regressão da cultura para a natureza. Neste último livro, Lévi-Strauss sublinha a importância do xamanismo como esforço de manter em comunicação esferas separadas no tempo do mito, algo, aliás indispensável para a manutenção – ou produção – da vida social, visto que, nestas paisagens ameríndias, a cultura se estende à sobrenatureza.

Não seria errôneo afirmar que o paradoxo das Mitológicas reflete o próprio paradoxo do pensamento ameríndio, qual seja: partir da ideia de que é preciso separar natureza e cultura e, ao mesmo tempo, restabelecer a comunicação entre elas, isto é, sua continuidade. Talvez seja este, também, o paradoxo do perspectivismo – esta teoria antropológica impregnada da teoria ameríndia e vice-versa, simetricamente –, conforme atinado por Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima. Este paradoxo seria o seguinte: os animais (ou outras espécies naturais, mas não quaisquer espécies) são humanos e, ao mesmo tempo, não são humanos. Os animais são humanos que se disfarçam sob um corpo animal e, ao mesmo tempo, não são humanos porque deixaram de sê-lo no tempo do mito. Em outras palavras, humanos e não-humanos partilham a condição humana – tal a lição animista – e, ao mesmo tempo, se diferenciam pelos seus corpos – tal a lição perspectivista. Isso leva Tânia Stolze Lima a constatar que a afirmação “os Yudjá pensam que os animais são humanos” é falsa. Em vez disso, seria mais adequado afirmar: “para si mesmos, os animais são humanos”. Afinal, o perspectivismo preza o fato de que não há realidade independente de um sujeito. Nas palavras da autora: “Eu poderia, assim, dizer que os Juruna pensam que os animais pensam que são humanos. [...] O ponto é que os animais estão longe de serem humanos, mas o fato de se pensarem assim torna a vida muito perigosa” (26).

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A ideia de perspectivismo conduz a pensar não apenas as semelhanças entre animal (porco-do-mato, por exemplo) e humano, mas sua diferença, o processo de diferenciação a que se submetem. Ou, como alega Viveiros de Castro: “Não é para identificar [os animais] aos humanos, mas para diferenciá-los de si mesmos, e a nós de nós mesmos” (Viveiros de Castro, 2002 p. 136). O perspectivismo implica pensar a passagem relativamente reversível – ou, para usar uma imagem de Viveiros de Castro, “em espiral” – do contínuo ao descontínuo, passagem não de um estado de indiferenciação para um estado de diferenciação; mas passagem de diferenças intensivas (internas) para diferenças extensivas (externas). Os seres míticos misturam atributos humanos e não-humanos e, no mito, as diferenças entre pontos de vista são ora anuladas, ora exacerbadas. O tempo mítico é, pois, um tempo em que as perspectivas não estavam fixadas: animais eram gente; ou, melhor: eram animais-gente. Havia a gente-onça, a gente-anta e toda essa gente deixou de sê-lo, tornando extensiva a diferença entre gente e bicho. Na passagem para o tempo atual houve, assim, uma diferenciação radical, uma perda de comunicação, algo como uma fixação de perspectivas. O tempo mítico é marcado por “diferenças infinitas”, internas a cada personagem, simultaneamente gente e onça, gente e queixada, gente e sucuri. Viveiros de Castro conclui: “O mito propõe um regime ontológico comandado por uma diferença intensiva fluente e absoluta que incide sobre cada ponto de um conjunto heterogêneo, em que a transformação é anterior à forma, a relação é superior aos termos e o intervalo é interior ao ser” (Viveiros de Castro, 2007 p.324). O tempo atual, por seu turno, é o tempo das “diferenças finitas”, externas. Em vez da transparência dos tempos míticos, a opacidade. Vemos um corpo animal como tal, mas na verdade ele esconde uma forma humana. Vemos um corpo humano como tal, mas na verdade ele esconde uma afecção jaguar. É então que Viveiros de Castro lança mão do neologismo DiferOnça – ao referir-se jocosamente a Derrida – para pensar essas diferenças intensivas, internas. A DiferOnça, mais do que uma Diferença, é um vetor de diferenciação intensiva, uma qualidade interna ao sujeito. O contínuo no perspectivismo não é, portanto, ausência de diferença, mas a diferença em estado contínuo, em estado intensivo (27a).

O desafio perspectivista deslindado por Viveiros de Castro consiste no fato de que nenhuma posição é segura no cosmos. Sendo a humanidade uma questão de ponto de vista, uma posição intercambiável, paira no ar sempre o perigo de “virar bicho”, “virar espírito”, “passar para o outro lado”, algo como morrer. Tendo em vista este problema, Dominique Gallois distingue entre os Wajãpi do Amapari (Amapá) a noção de “transformação” (reversível) e a de “metamorfose” (irreversível): a primeira seria desejada, ao passo que a segunda seria temida. Decorre daí que nenhuma posição no cosmos ameríndio é segura, já que este estaria marcado pela incessante luta de perspectivas. “Se tudo é humano, então tudo é perigoso”, comenta Viveiros de Castro em tom certamente roseano (2008 p 88).

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Há duas cenas de O homem urso, documentário de Werner Herzog, que conduzem à ideia de perigo aqui referida. Herzog narra a história de Timothy Treadwell, um expert em ursos que, justamente, por buscar viver entre estes animais ferozes, acabou sendo devorado por um deles. A primeira cena que me vem à mente traz o depoimento de Sven Haakanson, diretor do Museu Alutiq de Kodiak e nativo da região (provavelmente membro de um grupo de língua alutiq). Interrogado por Herzog, ele afirma que Treadwell teria cruzado uma barreira com a qual ele e seu povo teriam vivido durante cerca de sete mil anos. Isso porque, para os povos da região, o território dos ursos foi sempre respeitado, ursos e homens devendo evitar-se mutuamente. O depoimento de Sven sobrepõe-se, no filme, a imagens de Treadwell, num rio, aproximando-se sorrateiramente de um urso, que lhe parece indiferente. A outra cena que me vem à mente é aquela na qual o próprio Herzog interroga seu personagem, em voz over, quando este, diante de uma raposa morta (provavelmente atacada por um animal de maior porte), lamenta o ato de tamanha brutalidade, vendo nele uma exceção diante do quadro harmônico oferecido pela natureza. Nesse ponto, Herzog faz questão de distanciar-se de Treadwell: “Creio que o denominador comum da natureza não é a harmonia, mas o caos, a hostilidade e a matança”. Isso torna o diretor menos distante dos ameríndios perspectivistas do que seu personagem, figura excêntrica que teria alimentado o sonho de deixar a civilização humana para viver entre os ursos(27b).

Num mundo talhado pela predação – pela luta de perspectivas, termo talvez mais amplo e mais apropriado – se tudo é humano, eu posso não ser humano, posso ser animal. Assim, se tudo é humano, tudo é, também, animal. Permitam-me, sobre este ponto, traçar mais um paralelo com a filmografia moderna. Uma situação análoga aparece nas cenas finais de Blade Runner, de Ridley Scott. Não me refiro à versão standard, de 1982, mas à versão do diretor, exibida ao público em 1992. Rick Deckard, o caçador de andróides – guardião da humanidade que luta contra os replicantes rebeldes –, é levado a crer que pode ser, ele também, um andróide, alvo de sua própria perseguição. Um origami na forma de um unicórnio o transporta para um sonho recorrente: aquele de um unicórnio correndo pela floresta: imagem que não tem referente no real, logo produzida artificialmente em sua memória, o que revela que ele pode ser, como a mulher que ama, mais um replicante(28). A ideia de que o Outro – o não-humano, o andróide, o inimigo – sou Eu, a ideia de que este Outro me é imanente reenvia ao perspectivismo ameríndio como apresentado por Viveiros de Castro. O ponto é que entre os ameríndios estas posições são intercambiáveis, não sem um perigo extremo, ao passo que na ficção científica em questão a confusão de limites entre humano e não-humano é tida como um escândalo: ao replicante que rouba a condição humana só resta a repressão do Estado.

Se pensarmos que, no mundo moderno, os não-humanos em questão – ou melhor, os humanos não-humanos – são andróides, computadores, robôs, máquinas e não porcos-do-mato, jaguares, anacondas, o paralelo se esclarece. Ele se esclarece, também, se considerarmos a análise criativa de Pedro Ferreira sobre a correlação entre o mundo dos xamãs indígenas e o universo da tecnologia, mais especificamente, da música eletrônica, techno, executada pelos DJs das grandes cidades, que experimentam nas pistas de dança algo como um “transe maquínico”; veem-se como parte de uma maquinaria. Operam um devir-máquina em tudo análogo ao devir-animal. O que fariam esses DJs, e isso de um modo consciente, seria efetuar uma leitura xamânica de nossas maquinas, da nossa tecnologia (Ferreira, 2007).

O Outro sou Eu; o Outro me é imanente. Voltemos às paisagens ameríndias, mais especificamente aos Yudjá do médio Xingu, entre os quais Lima comenta o infortúnio de seus caçadores, não de andróides, mas de bichos. Um caçador não quer tornar-se porco; pelo contrário, quer manter-se como tal. Ele não pode deixar que os porcos imponham sobre ele a sua perspectiva, isso lhe seria mortal. Ao animal, alega a autora, não pode ser dada nenhuma chance de tomar a palavra, pois isso colocaria em risco a posição do caçador. As perspectivas estão em luta, todos os seres do cosmos permanecem ávidos para impor a sua perspectiva, para ocupar o ponto de vista da humanidade, único propriamente passível de ser ocupado por um sujeito. Estamos diante, aí, de uma cosmopolítica no mais do termo: a política dada na luta por posições no cosmos. Diante do perigo das caçadas, a lição de moral de um xamã yudjá seria a seguinte: “Cuidado! Os porcos se parecem conosco; portanto não os tratem como pessoas; senão vocês viram porcos!” (Lima, 2002 p. 38)

Coda

Parece, a essa altura, ser ponto pacífico a não possibilidade de projetarmos o dualismo moderno natureza e cultura para a realidade dos povos ameríndios (mesmo entre nós, é preciso lembrar, ele já aparece bastante borrado...). Note-se que o problema não está no dualismo propriamente dito (pois este pode se revelar em “perpétuo desequilíbrio”, como já salientado), mas na exigência moderna de operar por polarizações e limites rígidos entre o que se convencionou chamar natureza e cultura, humano e não-humano, corpo e alma. Os povos ameríndios invertem o modo de pensar predominante entre os modernos. Em vez de mononaturalismo, de uma só natureza (universal) para várias culturas (particulares), Viveiros de Castro propõe que pensemos, diante dos ameríndios, um multinaturalismo, múltiplas naturezas para uma só cultura ou Espírito. Pois, se o Espírito é o lugar da comunicação metafísica entre todos os existentes, os corpos fazem-se lugar da diferenciação, da singularização, da especiação. Em vez de pensar categorias puras, polares, os ameríndios pensariam em termos de diferenças intensivas, internas. O não-humano seria, assim, imanente ao humano, e essa porção imanente poderia ser acessada, entre outras coisas, pelo xamanismo e suas técnicas de êxtase.

Quando projetamos nossas expectativas com relação à natureza sobre a realidade dos índios tendemos, portanto, a cair em malentendidos. Por mais que a ecologia e o ambientalismo façam um apelo ético para a participação e a responsabilidade do homem diante do “mundo natural”, a natureza em jogo continua sendo uma “natureza-objeto”, que se revela, em última instância, como recurso natural que deve ser tratado de maneira sustentável, mas, ainda assim, visando o desenvolvimento produtivo. Mas se tudo são malentendidos, há, como diria Sahlins, malentendidos produtivos. Bruce Albert debruçou-se sobre um deles em um artigo genial, já bem conhecido pelos etnólogos, em que analisa o discurso de Davi Kopenawa Yanomami, xamã e líder político que se apropria dos enunciados ambientalistas para construir a reivindicação em defesa da terra indígena. Davi o faz mantendo-se fiel aos princípios de sua cosmologia. Ele fala em defesa da floresta tendo em vista a corrida do ouro e a invasão das terras yanomami pelos garimpeiros, cuja atividade é associada à produção de uma fumaça patogênica que ataca a floresta - sempre concebida como entidade viva, composta por uma comunidade de espíritos, os xapiripë, imagens vitais dos animais, auxiliares dos xamãs, sem os quais nada é possível (Albert, 2000).


Como afirma Albert, Davi xamaniza o discurso ambientalista ao mesmo tempo em que lhe dirige uma crítica mordaz. Davi diz, por exemplo, que “a ecologia [esse discurso dos brancos sobre a floresta] é, antes de tudo, palavras de Omama, o demiurgo Yanomami”. Ele acrescenta, ainda, que os xapiripë são os responsáveis pela entropia cósmica; sem eles tudo resvalaria no caos. Davi elabora um discurso pleno de neologismos, apoiando-se sempre na lógica mítica, que deslinda, por meio da evocação da imagem da queda do céu, toda uma cataclismologia, toda uma profética. Para Davi, o céu desabará se os brancos continuarem alheios aos ensinamentos dos xamãs, o mesmo podendo ser dito aos Yanomami de hoje, muitas vezes desinteressados pelo xamanismo e seu aprendizado. Mas é apenas por meio do xamanismo que é possível ver – e, portanto, travar comunicação com – os xapiripë. É o xamanismo – sempre apoiado na inalação do yãkoana (pariká), esta substância que dá acesso ao invisível, a realidade suprassensível – que permite a interação dos homens com a terra-floresta, uma vez que transporta os primeiros a um plano em que a última se revela uma miríade de subjetividades plenas de intenções.

Davi brinca com as palavras dos brancos e submete o discurso ecológico a uma crítica cosmológica ou mesmo xamânica. Ele diz, por exemplo, que a palavra “meio-ambiente”, que insistimos em empregar, significa simplesmente “floresta-natureza residual”, ou seja: um “ambiente partido ao meio”. Albert salienta que Davi não consente, em seu discurso exegético, nem uma ecologia científica, que sonha com uma natureza não-antropizada, nem uma ecologia política, que luta pela conservação ou preservação da biodiversidade. A ecologia de Davi é, antes de tudo, uma ecologia xamânica, baseada na relação social entre humanos e espíritos xapiripë, imagens de animais, ou melhor, segundo a glosa de Viveiros de Castro, uma região ou momento de indiscernibilidade entre o humano e o não-humano. Viveiros de Castro encontra na fala de Davi “uma humanidade molecular de fundo, oculta por formas molares não-humanas, e fala dos múltiplos afetos não-humanos que devem ser captados pelos humanos por meio dos xamãs, pois é nisto que consiste o trabalho do sentido; literalmente [citando o próprio Davi], ‘são as palavras dos xapiripë que aumentam nossos pensamentos’” (Viveiros de Castro, 2007 p. 321).

Para fechar esta apresentação, que já se alongou demais, prossigo com as palavras de Davi Yanomami: “Antes a gente não pensava: ‘vamos proteger a floresta!’ Pensávamos que nossos espíritos xamânicos nos protegiam. Só isso. Esses espíritos foram os primeiros a possuir ‘ecologia’. Eles afugentam os espíritos maléficos, impedem a chuva de cair sem parar, calam o trovão... e, quando o céu ameaça desabar, são eles que falam à ‘ecologia’. Eles protegem o céu quando este quer se transformar, quando o mundo quer escurecer. Eles são a ‘ecologia’ e por isso impedem as coisas. Nós tínhamos essas palavras desde sempre, mas vocês, os brancos, inventaram a ‘ecologia’ e então essas palavras foram reveladas e propagadas por todo lado” (Albert, 2000 p. 261). Vemos que esta defesa da “ecologia” parte, aqui, de uma configuração yanomami; e que apenas existe com referência aos espíritos xapiripë. (Reencontramos nela o pós-humanismo profético das Mitológicas de Lévi-Strauss, ao qual me referi há pouco.)

Podemos concluir, enfim, que todas estas ontologias xamânicas (calcadas no que autores como Descola e Viveiros de Castro denominaram, respectivamente, “animismo” e “perspectivismo”, ainda que sob sentidos variáveis) estão longe de constituir universos fechados. São, antes de tudo, instrumentos cognitivos para enfrentar a história; no caso, história do confronto entre mundos diversos, entre ontologias diversas, entre naturezas-culturas diversas – se assim podemos chamá-las de modo a afastar o dualismo enrijecedor que paira sobre nossas práticas de conhecimento.


Notas

1- Este texto – que prefiro manter em sua cadência oral – é uma versão transformada da aula que proferi em fevereiro de 2008 durante o concurso para professor da área de etnologia indígena do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O tema sorteado foi “natureza e cultura”, o famoso dualismo que os antropólogos contemporâneos – e os americanistas, particularmente – cuidam problematizar ou mesmo dissolver. Note-se que minha intenção foi produzir uma reflexão aberta, no sentido de conectar certas visões sobre o problema sem me preocupar em produzir uma síntese. Contei com a oportunidade de apresentar este texto em duas outras ocasiões: o seminário do Núcleo de Antropologia Urbana – NAU, ocorrido em maio de 2008, na USP, em São Paulo, e o seminário “Sextas na Quinta”, ocorrido em novembro do mesmo ano, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Agradeço, respectivamente, aos gentis convites de José Guilherme Cantor Magnani, de Marcio Goldman e de Gabriel Banaggia, que me estimularam a desdobrar as questões formuladas de início. Agradeço, também, aos alunos e professores que estavam presentes nestas ocasiões e que me ajudaram a pensar.

2- Pesquisador do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo (NHII/USP) e do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA/USP).

3- Veja-se, sobre este propósito, a reflexão de Carlos Fausto, 2002.

4- N.R.: os ameríndios.

5- Sobre como os primatólogos concebem a “cultura” dos símios, ver Silva & Sá, 2005.

6- Veja, especialmente, Strathern, 1992.

7- Sobre esta questão epistemológica, veja Lima, 2002.

8- Para uma discussão deste “dualismo em perpétuo desequilíbrio”, ver Viveiros de Castro, 2008.

9- “No nature, no culture: the Hagen case” (Mac Cormack & Strathern, 1980).

10- Para uma discussão da “controvérsia” entre Descola e Viveiros de Castro, veja Latour (2009). [Ver Nota 1 do Blog]

11- Veja, também: Descola, 1992, 1998 e 2004.

12- Veja, em especial, O cru e o cozido: Mitológicas I; op. cit.

13- Op. cit

14- As origens dos modos à mesa. Op. cit.; p. 460.

15- Viveiros de Castro, Eduardo.”Xamanismo transversal”, op. cit.

16- Veja Descola, 2008.

17- Descola, Philippe. Par-delà nature et culture; op. cit.

18- Para uma distinção entre humanity e humankind na cosmologia dos modernos, veja Ingold, 1995.

19- Veja, a esse respeito, Viveiros de Castro, 2007.

20- Viveiros de Castro, Eduardo. Araweté, os deuses canibais. Rio de Janeiro: Zahar/Anpocs, 1986.

21- Veja, sobretudo: Lima, 2006.

22- Veja, a esse respeito, Viveiros de Castro, Eduardo. “Xamanismo transversal”; op. cit.

23- Faço referência a expressões que aparecem em obras como A origem dos modos à mesa: Mitológicas III, op. cit,

24- História de lince (op. cit.) e o Posfácio à revista L’homme (154-155): “Question de parenté”. Paris: LAS, 2000.

25- Op. cit.

26- Op. cit.

27a- Ao revisar o texto para colocá-lo aqui, percebi que havia uma Nota a mais no artigo publicado pela Revista Ponto Urbe, sem estar, entretanto, marcada no próprio texto. Conferi o texto original e percebi que, ao invés da Nota 27b, havia uma outra que assim dizia:

Ver, sobre este ponto, o wiki Amazone (http://amazone.wikia.com/wiki/Página_principal), no qual um texto de Viveiros de Castro sobre o perspectivismo ameríndio, intitulado “A onça e a diferença”, é submetido a um processo de autoria múltipla.

A Nota 27, inclusive, parece ter sido colocada erronamente, já que ela remete ao filme assinalado na Nota 28(O homem urso), sendo que a Nota 29 é aquela se refere ao filme Blade Runner.

Esta nota não figura no artigo publicado pela revista. (N. do Blog)

27b- Lima, Tânia S. O dois e seu múltiplo; op. cit. p. 26.

28- O homem urso (Grizzly Man. Direção de Werner Herzog. EUA, 2005).

29- Blade Runner (Direção de Ridley Scott, roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, baseado na novela "Do Androids dream of electronic sheep?", de Philip K. Dick. EUA, 1982 [versão do diretor: 1992]).


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Nota do Blog:

1- Para quem se interessar, fiz uma tradução livre para este artigo. Ela se encontra em: http://epifenomenos.blogspot.com/2009/05/os-indios-na-franca-segundo-latour.html



Fonte:

http://www.pontourbe.net/04/sztutman-pu4.html