quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
A linguagem parece sonhar
Saussure, o pai da lingüística moderna, uma vez começou a estudar anagramas latinos - um corpo poético obscuro, usado em grande parte ocasionalmente - para ver que provas eles poderiam conter a respeito da natureza da linguagem. À medida que ele comparava os anagramas com outros tipos de poesia latina, começou a perceber anagramas nestes outros textos. Certas letras, sempre formando palavras que reforçavam o assunto do poema, estavam embutidas e padronizadas de acordo com a superfície lingüística dos textos. Quando ele investigou a prosa latina, também encontrou anagramas. Poesia latina medieval? Mais anagramas. Mesmo a poesia moderna, escrita por estudiosos, trazia tal sintoma. Seria uma conspiração bizarra, uma tradição passada silenciosamente de poeta a poeta, mas alheia à filologia? Saussure começou a agir de forma estranha. Escreveu uma carta a um professor de literatura clássica, que vivia na Suíça e era conhecido por seus versos em latim polido. "Por que sua poesia está cheia de anagramas?", perguntava Saussure. "O que está acontecendo?" Desnecessário dizer que ele não obteve resposta. Nesse ponto, Saussure cambaleou para trás como se estivesse sentindo a vertigem de cair num abismo. Ou a conspiração era real, ou então a própria linguagem era a fonte de tantos anagramas. A própria linguagem tinha uma espécie de inconsciente, um processo onírico, que se organizava em jogos sinistramente sagazes, de palavras sobre palavras, de palavras dentro de palavras, significativos anagramas ocultos, embutidos, inscritos em todo texto que ele examinava. Havia um nível de linguagem além da langue/parole, do signo e do significado? Ou ele estava enlouquecendo? Abalado, Saussure abandonou o projeto. (1)
Nota:
1 - Veja o estudo de Jean Starobinski (1979) sobre os cadernos não publicados de Saussure sobre anagramas, Words Upon Words: The Anagrams of Ferdinand de Saussure. (N. A.)
Extraído de:
Peter Lamborn Wilson - Chuva de Estrelas : o sonho iniciático no sufismo e taoísmo
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Leminski e o haicai
"Quatro anos depois, Paulo Leminski lança Distraídos venceremos, sua última obra poética em vida. O livro reúne cerca de trinta poemetos na seção "KAWA CAUIM, desarranjos florais". Harmonizando o idioma da terra de Wa (Japão) com o tupi, Leminski erige, com a precisão de quem domina a carpintaria poética, um pequeno e comovente oratório para o haicai."
cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença
(Leminski)
Texto e poema extraídos do livro boa companhia: haicais.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Sobre o materialismo
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Chuva de Primavera
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sábado, 28 de novembro de 2009
Outrem
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Homenagem a Lévi-Strauss na USP
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terça-feira, 3 de novembro de 2009
Claude Lévi-Strauss in memorian

Hoje o blog está de luto.
Por este motivo, reuni aqui alguns artigos a respeito do falecimento de Lévi-Strauss (cuja obra é bastante cidada neste blog, sendo de grande influência para os temas aqui tratados). Eu poderia ter colocado mais artigos e comentários, mas eram muitos e não tive tempo de ler todos. Quem quiser pode colocar links ou indicações de leitura na parte de comentários desta postagem.
Espero que gostem da homenagem, que, apesar de simples e tosca, é bastante sincera.
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Claude Lévi-Strauss, 1908-2009

From: Lydia Robin
Mes chers collègues,
J’ai la tristesse de vous annoncer la disparition de notre collègue Claude Lévi-Strauss, dans sa 101ème année.
Nous aurons prochainement l’occasion de nous retrouver pour lui rendre hommage.
Je vous prie de croire, mes chers collègues, en l’assurance de mes sentiments amicaux.
François Weil
—Lydia Robin
Secrétariat de la présidence
EHESS
Extraído de: Blog Savage Minds
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USP reconhece em Lévi-Strauss um de seus mais dignos fundadores
Valéria Dias / Agência USP
Extraído de: http://www4.usp.br/index.php/institucional/17839-usp-reconhece-em-levi-strauss-um-de-seus-mais-dignos-fundadores
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O etnólogo e antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss morreu na noite de sábado para domingo (1º) aos 100 anos, de acordo com um porta-voz da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris, na França. Ainda não há informações sobre a causa da morte do antropólogo. O falecimento foi divulgado pela editora Plon.
Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Lévi-Strauss foi um dos grandes pensadores do século 20. Ele, que completaria 101 anos no próximo dia 28, tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.
De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.
"Ele soube partir do empirismo para dialogar e colocar a antropologia em pé de igualdade com outras ciências humanas, como a filosofia. Lévi-Strauss é um autor fundamental", afirma Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da USP e mestre e doutor em Antropologia Social na área de etnologia indígena.
Extraído de: http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/11/03/ult1859u1791.jhtm
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A ABA tem o pesar de informar a seus associados a morte de Claude Lévi-Strauss, um dos mais destacados antropólogos da atualidade, no dia 01 de novembro, aos 101 anos de idade.
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O album do UOL traz belas imagens do e com o antropólogo
Há também a matéria do Estadão
Alguns comentários acerca da morte de Lévi-Strauss e, embaixo, um link com entrevistas interessantes (O Globo)
Para quem lê em francês, há trambém os seguintes artigos:
Entrevista com Roland Pourtier, geógrafo da Sorbonne
Artigo no Le Monde, com comentários de diversas pessoas, incluindo Philippe Descola e Nicolas Sarkozy
Entrevista com Françoise Héritier
Lévi-Strauss e a literatura
Editorial do Le Monde
No site do Le Parisien há mais informações e comentários.
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sábado, 24 de outubro de 2009
O Pau Brasil (*)

Por: Larissa Barcellos
Pois bem, meus caros leitores, faço aqui uma pausa para refletir acerca de um problema que me foi colocado há exatamente um ano, quando eu estava lendo o livro “Antropólogos e a Antropologia”, de Adam Kuper. Nesta mesma época, assisti ao Grupo de Trabalho coordenado por Marcio Goldman e Eduardo Vargas na reunião anual da ANPOCS, sobre a Antropologia Pós-Social. Compareci, também, à palestra proferida por Eduardo Viveiros de Castro na USP, sobre Claude Lévi-Strauss. Estes dois últimos eventos representam, para mim, uma entrada mais efetiva na Antropologia.
O Problema
O ultimo capitulo do livro de Kuper tem como epígrafe a seguinte questão, levantada por Leach:
“Afinal, em nome dos céus, o que nós estamos tentando descobrir?”
Confesso que fiquei contente ao ler esta frase, já que acreditava que crises deste tipo eram usuais apenas nas mentes confusas dos estudantes de graduação.
A mesma pergunta reapareceu para mim alguns meses depois, em um texto de Marcio Goldman (que citava Kuper), com comentários que, na época, eu pouco entendi.
A Piada
Quando eu estava na escola, os meus amigos e eu gostávamos de interromper as aulas para contar aos professores uma piada infame, pelo simples prazer da interrupção, e na tentativa de quebrar o tédio.
Ela era assim:
Aluno: Como os portugueses descobriram o Pau Brasil?
Professor: Observando a mata brasileira.
Aluno: Não! Foi levantando a tanguinha dos índios.
Na primeira vez que ouvi esta piada eu não entendi o seu significado, por não ter percebido o trocadilho com a palavra “descobrir”. Foi somente alguns anos depois, ao contá-la a uma amiga, que pude compreender o que ela queria dizer.
A descoberta
O ponto em comum mais evidente entre estes dois enunciados é o uso da palavra “descobrir” – e eu me apoio aqui, de maneira in-conseqüente, na tradução para o português do livro de Kuper.
Na fala de Leach, a palavra tem o mesmo significado acionado pelo professor em sua resposta ao aluno. Este, entretanto, subverte o significado do verbo, dando graça à piada, e também demonstrando tanto as armadilhas interessantes da fala brasileira, quanto o contraste entre as maneiras usuais de se pensar através da linguagem, e suas alternativas possíveis e implícitas.
Proponho que façamos o mesmo com a questão posta por Leach e reproduzida tanto por Kuper quanto por Goldman, mas também por muitos dos meus colegas de curso. Acionemos, como o aluno, o significado outro da palavra “descobrir”, a partir da tradução da fala do antropólogo para o português. A questão que coloco aqui é: e se, ao invés de pensarmos como o professor, visualizarmos o seu significado à maneira do aluno?
Proponho, também, que pensemos o antropólogo enquanto etnógrafo – e Leach o era – interessado no contato com outras culturas e formas de viver. Poderíamos aproximá-lo, então, dos portugueses, os homens da ação (na piada), e não do discurso (no contar a piada), os homens da experiência (o levantar a tanga e ver o que está por baixo) que leva à linguagem (a historinha contada pelo aluno), e não da linguagem (piada) que leva à experiência (o imaginar a situação ou rir da piada) (1). O que, então, poderíamos estar tentando descobrir? Esta é uma ação particular e deve ser situada. Oras, estamos falando aqui do Brasil – e outro ponto em comum entre a pergunta e a piada é colocado: ambos foram enunciados em português e por/para os falantes desta língua – e isto, creio, basta por enquanto para que possamos situá-la no Brasil.
Leach era um antropólogo das ditas “sociedades primitivas”, sendo um dos responsáveis pela incorporação do pensamento de Lévi-Strauss na Inglaterra. Aproximo-o (ainda de maneira in-conseqüente) a Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro que também estuda as “sociedade primitivas” e é um dos responsáveis pela re-incorporação do pensamento de Lévi-Strauss no Brasil.
Podemos aproximar também a história do aluno à de Viveiros de Castro. Na primeira, os portugueses, ao chegarem até os índios, descobriram-nos de suas roupas (2) e perceberam o corpo de um “outro” ser humano, diferente dos seus. Eduardo Viveiros de Castro, por sua vez, foi à Amazônia e, ao se livrar de sua forma de ver os índios, das categorias que moldavam o seu pensamento, buscou ver aquelas a que os próprios índios se colocavam, percebendo uma forma de pensamento “outra”, diferente da sua.
Viveiros de Castro diz que não está “preocupado com a questão indígena, mas com as questões indígenas no plural”, e, assim, pode desnudar o pensamento ameríndio, descobrindo-o dos olhos etnocêntricos (muito presentes na antropologia) e da necessidade – sempre cientifica, racional e profissional – de categorizar, de acordo com a nossa linguagem, aquilo que apreendemos da cultura (e conduta) alheia. O autor está preocupado com as questões que os índios se colocam, a fim de alterar o pensamento Ocidental, confrontando-o com questões outras que, por serem “humanas” (somos todos seres humanos), são virtuais para todos os povos – na tentativa de um contato com um “outro” sempre possível, mesmo que ausente de maneira efetiva.

Traçando mais relações
Podemos dizer que o aluno está em desvantagem (no que diz respeito a relações de poder) quanto ao professor, já que, aos olhos da sua sociedade, além de estar passando pela fase da adolescência, não foi ainda completamente socializado. Ele é, assim, um selvagem. Entretanto, e por este motivo, ele pode transitar pelos diferentes sentidos da palavra “descobrir”, latentes ou não. Ele brinca e se aproveita do fato, causando reações no professor.
Os índios, vistos como selvagens pela cultura do antropólogo, são subordinados, em termos de poder, pela mesma, mas despertam para o antropólogo novas questões, latentes ou não em sua cultura, desencadeando nele um novo tipo de pensamento.
Além disso, a questão posta por Leach – que foi marginalizado pela academia britânica, sendo considerado um “enfant terrible” pelo meio antropológico -, sendo muito "boa para pensar", ajudou tanto Kuper quanto Goldman a desenvolverem teorias e enunciados.
Os meus colegas e eu, por nosso turno, confusos e em crises, nos animamos com a questão de Leach, e em Goldman e Kuper fomos buscar uma resposta para ela, já que parece um tanto desmotivador estudar algo que não se sabe bem o que é.

Conclusão
Refazendo o trajeto que me levou a compreender a piada, nos anos de minha entrada na adolescência, percebi que, talvez, o que faltava para que eu entendesse melhor a questão de Leach, a antropologia de Eduardo Viveiros de Castro e, principalmente, o texto de Marcio Goldman, quando me iniciava na carreira das Ciências Sociais, era inverter os significados explícitos do enunciado de Leach, trazendo à tona os seus significados latentes. – Afinal de contas, eu me colocara o mesmo dilema alguns anos antes.
A solução encontrada (a de levantar a tanguinha do pensamento indígena, para que fossem postas à vista as suas questões) poderia ser um sinal de motivação nas mentes (sempre) entediadas dos alunos, provocando, senão o riso divertido e infantil, inquietações interessantes e interativas, tanto em questões quanto em experiências que são, no mínimo, "boas para pensar".
E não é tudo. Se os portugueses da história contada pelo aluno chegaram ao Pau Brasil ao levantar a tanguinha dos índios, Eduardo Viveiros de Castro fez, de certa forma, a operação inversa: foi, em parte, ao entrar em contato com o Pau Brasil de Oswald de Andrade que ele pôde ver a tanguinha do pensamento ameríndio.
Com isto, concluo a minha reflexão – confusa, irresponsável e cheia de sacações meramente intuitivas. E foi na busca de acabar com o tédio que eu, uma jovem estudante de ciências sociais – academicamente não domesticada, selvagem portanto –, arrisquei ser inconseqüente e brinquei com os termos, seus significados e suas relações.
Caricatura de M. Goldman feita no Colóquio Pierre Clastres (Sesc/SP - 2009)
Notas:
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O Portador

Antonio Candido
Mesmo rejeitando o conteúdo das suas idéias, devemos reter e ponderar a sua técnica de pensamento, como propedêutica à superação das condições individuais. “O homem é um ente que deve ser ultrapassado”: disse ele; e o que propõe é ultrapassar incessantemente o ser de conjuntura, que somos num dado momento, a fim de buscar estados mais completos de humanização. Talvez pudéssemos indicar os rumos da sua propedêutica dizendo que visa a uma expansão mais completa das energias de que somos portadores, e nesse sentido é elucidativa a preocupação de ascese, de exercício preparatório, que atravessa toda a sua obra. Por isso invoca ou sugere uma certa dureza e a abolição da autocomplacência: ver duro e cru, em si e nos outros, para ser capaz de ver justo e bom, posto que justiça e bondade repousam sobre a energia com que superamos as injunções, as normas cristalizadas, tudo enfim que tende a imobilizar o ser em posições já atingidas e esvaziadas de conteúdo vivo. O que é tacitamente aceito por nós; o que recebemos e praticamos sem atritos internos e externos, sem ter sido por nós conquistado, mas recebido de fora para dentro, é como algo que nos foi dado; são dados que incorporamos à rotina, reverenciamos passivamente e se tornam peias ao desenvolvimento pessoal e coletivo. Ora, para que certos princípios, como a justiça e a bondade, possam atuar e enriquecer, é preciso que surjam como algo que obtivemos ativamente a partir da superação dos dados. "Obtém a ti mesmo" - é o conselho nietzschiano que o velho Egeu dá ao filho, no Teseu, de Gide. Para essa conquista das mais lídimas virtualidades do ser é que Nietzsche ensina a combater a complacência, a mornidão das posições adquiridas, que o comodismo intitula moral, ou outra coisa bem soante. Na sua concepção há uma luta permanente entre a vida que se afirma e a que vegeta; parecia-lhe que esta era acoroçoada pelos valores rotinizados da civilização cristã e burguesa.
Realmente, se submetermos à análise rigorosa a maneira por que damos abrigo aos valores espirituais, veremos que em nossa atitude há mais de comodismo e flacidez moral do que propriamente crença ativa e fecundante. Aceitamos por via de integração, participação submissa no grupo, tendendo a transformar os gestos em simples repetição automática. E fazemos isso para evitar as aventuras da personalidade, as grandes cartadas da vida, julgando pôr em prática valores conquistados por nós mesmos. Ora, a obra de Nietzsche nos pretende sacudir, arrancar deste torpor, mostrando as maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos em vez de nos afirmarmos. Encarada assim, a exaltação do homem vital e sem preconceitos vale, de um lado, como retificação do humanitarismo freqüentemente ingênuo do século XIX; de outro, como reivindicação da complexidade do homem, contra certas versões racionalistas e simplificadoras.
Com efeito, ele afirma longamente em sua obra (de modo quase sistemático na primeira parte de Além do bem e do mal, por exemplo) que o homem é mais complexo do que supõem as normas e convenções. Bem antes das modernas correntes da psicologia, analisou a força e importância dos impulsos de domínio e submissão, concluindo que há em nós um animal solto que também compõe a personalidade e influi na conduta. Naquela obra, insiste sobre a presença, no tecido da vida humana, dessas componentes que a moral e a convenção procuram eliminar, depois de as haverem condenado.
A sua teoria da consciência como superfície, afloramento de obscuridades que não se pressentem, anuncia a psicanálise, como podemos ver nas longas exposições da Vontade de poderio. Sob este ângulo, e apesar do desvirtuamento da expressão, o super-homem aparece como tipo superiormente humano, - um ente que consegue manifestar certas forças de vida, mutiladas em outros por causa da noção parcial que a psicologia e a moral convencionais oferecem de nós. Em meio à hipocrisia, à debilidade da consciência na burguesia européia do fim do século, ao humanitarismo manhoso com que procurava adormecer o sentimento de culpa, Nietzsche assume por vezes uma estatura de justiceiro. E um exemplo da ironia que espreita na posteridade as idéias dos filósofos é o fato de muitas dessas virtudes de dureza propedêutica terem sido encarnadas, no século xx, por uma raça de homens que ele sempre considerou progênie de escravos. Na elite revolucionária que implantou o socialismo na Rússia, encontravam-se, como a realização impressionante duma profecia, as qualidades de implacável retidão que atribui, em Vontade de poderio, ao "Legislador do Futuro", - que poda sem dó a fim de favorecer a expansão plena, e cuja dureza aparente é, no fundo, amor construtivo pelos homens.
Nele, porém, esta atitude só adquire significado reposta no conjunto da obra, - naquela mistura, tão sua, de fervor e irreverência, destruição raivosa e júbilo construtivo, que é a única possibilidade do nosso tempo e ele anteviu como profeta. Para a opinião dominante, a sua crítica violenta fez dele um personagem incômodo, ante o qual se fecham as portas da cidade, como as que, na parábola final de Humano, demasiado humano, rejeitam o peregrino para a noite do deserto. Ele vinha romper uma série de hábitos tacitamente aceitos, e mostrar que a própria filosofia não dava mais conta das obrigações para com a vida.
Talvez se possa dizer, com efeito, que a partir do século XVIII e até o nosso, ela cuidou mais da natureza do espírito e das condições do seu funcionamento, que do seu caráter de aspecto da atividade humana total. Doutro lado, analisou de preferência tudo que condiciona e resulta do comportamento; raras vezes desceu às suas raízes vivas. Semelhante tarefa coube não raro à arte, cuja importância como forma de conhecimento não decresceu no mundo moderno, como se poderia pensar à primeira vista. A acuidade psicológica, por exemplo, não se confunde com a competência dos especialistas, e deve ser buscada menos neles do que em obras como as de Dostoievski, Proust, Pirandello ou Kafka; e não é de estranhar que o maior psicólogo do nosso tempo, Freud, seja uma espécie de ponte entre o mundo da arte e o da ciência; entre os processos positivos de análise e a intuição estética.
Nietzsche se situa no universo dos psicólogos artistas, e daí decorre o significado central da sua obra. Enquanto algumas e por muitos lados melhores tendências do pensamento oitocentista procuravam resolver o problema da vida em sociedade criticando as condições de existência, ele tentou atingir diretamente o núcleo da personalidade. Se Marx ensaiava transmudar os valores sociais no que têm de coletivo, ele ensaiou uma transmutação do ângulo psicológico, - do homem tomado como unidade duma espécie, pela qual é decisivamente marcado, sem desconhecer, é claro, todo o equipamento de civilização que intervém no processo. São atitudes que se completam, pois não basta rejeitar a herança burguesa no nível da produção e das ideologias; é preciso pesquisar o subsolo pessoal do homem moderno tomado como indivíduo, revolvendo as convenções que a ele se incorporam e sobre as quais assenta a sua mentalidade.
Daí a conseqüente transmutação dos valores morais. Discípulo dos grandes analistas franceses, apaixonado de Stendhal e Dostoievski, dando uma sentença de Pascal por toda a metafísica alemã, continua os grandes investigadores da conduta, concebida como arte. O seu objetivo é lançar as bases de uma nova ética, acessível aos homens que se obtêm, - homens superiores que alargarão até os outros aquilo que conquistaram penosamente, cauterizando em si a herança de uma civilização desvirtuada. "É certo que todos nós temos laços e afinidades que nos ligam ao santo, assim como um parentesco espiritual nos vincula ao filósofo e ao artista”, - diz numa das Considerações intempestivas. Em conseqüência, todo progresso no sentido da realização do super-homem significa riqueza coletiva, na medida em que atuam essas afinidades secretas que, ligando-o a todos, a todos enriquecem pela comunicação da seiva.
Para favorecer o aparecimento dos homens superiores, é preciso alterar o modo de encarar a vida e o conhecimento. O ideal nietzschiano seria o pensador que passeia livremente pela vida e recusa considerar a atividade criadora uma obrigação intelectual; o homem que, para fecundar a si e aos outros, suprime o hiato existente as mais das vezes entre conhecer e viver.

Há, com efeito, seres portadores, que podemos ou não encontrar, na existência quotidiana e nas leituras que subjugam o espírito. Quando isto se dá, sentimos que eles iluminam bruscamente os cantos escuros do entendimento e, unificando os sentimentos desparelhados, revelam possibilidades de uma existência mais real. Os valores que trazem, eminentemente radioativos, nos trespassam, deixam translúcidos e não raro prontos para os raros heroísmos do ato e do pensamento. Geralmente, ficamos ofuscados um instante quando os vemos e, sem força para os receber, tergiversamos e nos desviamos deles. A opacidade se refaz, então, a mediania recobra o domínio e só resta a lembrança, de efeitos variáveis. Os coevos lobrigavam chamas do inferno na barra da túnica de Dante; nos nossos olhos resta igualmente a nostalgia do reino perdido, como no soneto de Antero de Quental:
E assentado entre as formas imperfeitas,

Entretanto, embora nos iluminemos apenas um instante e os portadores sigam, o que seria da vida e do pensamento se não houvesse oportunidades semelhantes? As idéias e valores existem ante nós como alvos inatingíveis, e o nosso destino é tender a eles. Por isso a vida é uma tendência sem fim, excetuados os momentos de plenitude que suspendem a corrente do tempo. Não obstante, enquanto permanecermos de um lado, e os valores de outro, o esforço e a lucidez da nossa visão serão mais ou menos frouxos. Na vida, só sentimos a realidade dos valores a que tendemos, ou que pressentimos, quando nos pomos em contacto com certos intermediários, cuja função é encarná-los, como portadores que são. A abstração e o sentimento adquirem vida (la connaissance a trouvé son acte, diria Valéry) e somos capazes de sentir plenamente, viver os valores. Ao contrário da vida, que dispersa, os portadores condensam e unificam extraordinariamente; daí se imporem como um bloco e fazerem ver a vida como um bloco, que nos afasta por um momento da mediania e impõem uma necessidade quase desesperada de vida autêntica.
Diário de São Paulo / 1946
Fonte:
Postado por lalb às 13:48 0 comentários
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