sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O RITUAL DO CORPO ENTRE OS NACIREMA

O RITUAL DO CORPO ENTRE OS NACIREMA (1)

Horace Minner (2)


O antropólogo tornou-se tão familiarizado com a diversidade de modos pelos quais diferentes povos reagem diante de situações similares, que não consegue se surpreender mesmo com os costumes mais exóticos. Com efeito, se todas as combinações logicamente possíveis de comportamento não tiverem sido encontradas em alguma parte do mundo, ele tem o direito de suspeitar que elas devem estar presente em alguma tribo ainda não estudada. Essa observação já foi, de fato, feita com respeito à organização clânica por Murdock (1949:71). Nesse sentido, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão pouco usuais, que nos parece desejável descrevê-las como exemplo dos extremos a que o comportamento humano pode chegar.
O Prof. Linton foi o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para o complexo ritual dos Nacirema, há vinte anos (1936:326), mas a cultura desse povo é ainda muito pouco compreendida.



Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.
A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de preocupação não seja incomum, seus aspectos cerimoniais e a filosofia associada são únicos.
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é feio, e sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é se prevenir dessas características, através do uso de poderosas influências rituais e cerimoniais. Todo grupo doméstico possui um ou mais santuários dedicados a tal propósito. Os indivíduos mais poderosos dessa sociedade têm vários santuários em suas casas e, de fato, a opulência de uma casa é freqüentemente aferida em termos da quantidade que possui desses centros rituais. A maioria das casas é de taipa, mas os santuários dos mais ricos têm as paredes cobertas de pedra. As famílias mais pobres imitam os ricos, aplicando placas de cerâmica nas paredes dos seus santuários.
Embora cada família possua ao menos um desses santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim privadas e secretas. Os ritos, normalmente, só são discutidos com as crianças, e isso apenas durante a fase em que elas estão sendo iniciadas nesses mistérios. Eu pude, entretanto, estabelecer com os nativos uma relação que me permitiu examinar esses santuários e ouvir descrições desses rituais.
O ponto focal do santuário é uma caixa ou arca embutida na parede. Nessa arca são guardados os muitos feitiços e poções mágicas, sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são obtidos de vários profissionais especializados. Entre estes, os mais poderosos são os curandeiros, cujos serviços precisam ser recompensados por meio de presentes substanciais. No entanto, o curandeiro não fornece as poções curativas para os seus clientes, decidindo apenas quais devem ser seus ingredientes e escrevendo-os em seguida em uma linguagem antiga e secreta. Tal escrita só pode ser compreendida pelo curandeiro e pelos herbanários, os quais, mediante outros presentes, fornecem o feitiço solicitado.
O feitiço não é descartado depois de ter servido a seu propósito, e sim colocado na caixa de mágicas do santuário doméstico. Como esses materiais mágicos são específicos para certas doenças, e as doenças reais ou imaginárias desse povo são muitas, a caixa de mágica costuma estar sempre transbordando. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem sua serventia original, e temem usá-los de novo. Embora os nativos tenham se mostrado muito vagos a esse respeito, podemos apenas concluir que a idéia subjacente ao costume de se guardar todos esses velhos materiais mágicos é a de que sua presença na caixa de mágicas, diante da qual os ritos do corpo são encenados, protegerá de alguma forma o fiel.
Embaixo da caixa de mágicas existe uma pequena fonte. Todo dia, cada membro da família, em sucessão, entra no quarto do santuário, curva a cabeça diante da caixa d'água, mistura diferentes tipos de água sagrada na fonte, e realiza um breve rito de ablução. As águas sagradas são obtidas do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes conduzem elaboradas cerimônias para manter o líquido ritualmente puro.
Na hierarquia dos profissionais da magia, e abaixo do curandeiros em termos de prestígio, estão especialistas cuja designação é melhor traduzida por "homens-da-boca-sagrada". Os Nacirema têm um horror e uma fascinação pela boca que chega às raias da patologia. Acredita-se que a condição da boca possua uma influência sobrenatural em todas as relações sociais. Não fosse pelos rituais da boca, os Nacirema acreditam que seus dentes cairiam, suas gengivas sangrariam, suas mandíbulas encolheriam, seus amigos os abandonariam, e seus amantes os rejeitariam. Eles também acreditam na existência de uma forte relação entre características orais e morais. Assim, por exemplo, existe uma ablução ritual da boca das crianças que se supõe desenvolver sua fibra moral.




O ritual do corpo cotidianamente realizado por todos inclui um rito bucal. Apesar do fato de essas pessoas serem tão meticulosas no que diz respeito ao cuidado da boca, esse rito envolve uma prática que o estrangeiro não-iniciado não consegue deixar de achar repugnante. Conforme foi-me descrito, o rito consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos pós mágicos, seguida da movimentação desse feixes segundo uma série de gestos altamente formalizados.
Além desse rito bucal privado, as pessoas procuram um "homem-da-boca-sagrada" uma ou duas vezes por ano. Esses profissionais possuem uma impressionante parafernália, que consiste em uma variedade de perfuratrizes,
furadores, sondas e agulhas. O uso desses objetos no exorcismo dos perigos da boca envolve uma tortura ritual do cliente quase inacreditável. O "homem-da-boca-sagrada" abre a boca do cliente e, usando as ferramentas citadas, alarga qualquer buraco que o uso tenha feito nos dentes. Materiais mágicos são então depositados nesses buracos. Se não se encontram buracos naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são cerradas, para que a substância sobrenatural possa ser aplicada. Na visão do cliente, o objetivo dessas aplicações é deter o apodrecimento dos dentes e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito fica evidente no fato de que os nativos retomam todo ano ao "homem-da-boca-sagrada", apesar do fato de que seus dentes continuam a se deteriorar.
Deve-se esperar que, quando um estudo abrangente dos Nacirema for feito, seja realizada uma pesquisa cuidadosa sobre a estrutura da personalidade desses nativos. Basta observar o brilho nos olhos de um "homem-da-boca-sagrada", quando ele enfia uma agulha em um nervo exposto, para que se suspeite de que uma certa dose de sadismo está presente. Se isso puder ser verificado, um padrão muito interessante emergirá, posto que a maioria da população mostra tendências masoquistas bem definidas. Era a tais tendências que o Prof. Linton se referia, ao discutir uma parte especial do ritual cotidiano do corpo que é realizada apenas pelos homens. Essa parte do rito envolve uma lanhadura e laceração da superfície do rosto por meio de instrumento cortante. Ritos femininos especiais ocorrem somente quatro vezes por mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência sobra em barbárie. Como parte dessa cerimônia, as mulheres assam suas cabeças em pequenos fornos durante mais ou menos uma hora. O ponto teoricamente interessante é que um povo que parece ser predominantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.
Os curandeiros possuem um templo imponente, ou latpso, em cada comunidade de algum tamanho. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para o tratamento de pacientes muito doentes, só podem ser realizadas nesse templo. Tais cerimônias envolvem não só o taumaturgo, mas também um grupo permanente de vestais, que se movimentam calmamente pelas câmaras do templo com uma indumentária e um penteado distintivos.
As cerimônias latpso são tão rudes que é impressionante o fato de que uma razoável proporção dos nativos realmente doentes que entram no templo consiga curar-se. Crianças pequenas, cuja doutrinação é ainda incompleta, costumam resistir às tentativas de levá-las ao templo, alegando que "é aonde você vai para morrer". Apesar disso, os doentes adultos não apenas desejam, como ficam ansiosos para submeter-se à prolongada purificação ritual, se eles possuem meios para tanto. Os guardiões dos muitos templos, não importa quão doente o suplicante ou quão grave a emergência, não admitem o cliente se ele não puder dar um rico presente ao zelador. Mesmo depois que conseguiu a admissão e sobreviveu às cerimônias, os guardiões não permitem a saída do neófito até que este dê ainda outro presente.





O(a) suplicante, ao entrar no templo, é primeiramente despido(a) de todas as suas roupas. Na vida cotidiana, os Nacirema evitam a exposição de seus corpos e de suas funções naturais. O banho e a excreção são realizados somente na intimidade do santuário doméstico, onde são ritualizados, fazendo parte dos ritos corporais. Choques psicológicos resultam da súbita perda da privacidade corporal, ao se entrar no latpso. Um homem, cuja própria mulher jamais o viu enquanto realizava um ato excretório, subitamente encontra-se nu, assistido por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais dentro de um vaso sagrado. Esse tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excrementos são usados por um adivinho para diagnosticar o curso e a natureza da doença do paciente. Os clientes femininos, por seu lado, vêem seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e cutucadas dos curandeiros.
Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bem para fazer qualquer coisa que não seja ficarem deitados em suas camas duras. As cerimônias diárias, como os ritos do "homem-da-boca-sagrada", envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestais acordam a cada madrugada seus miseráveis pacientes, rolam-nos em seus leitos de dor, enquanto realizam abluções, cujos movimentos formalizados são objeto de treinamento intensivo das vestais. Em outros momentos, elas inserem varas mágicas na boca do paciente, ou obrigam-no a comer substâncias que são consideradas curativas. De tempos em tempos, os curandeiros vêm a seus pacientes e introduzem agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que essas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé do povo nos curandeiros.
Ainda resta um outro tipo de especialista, conhecido como "escutador". Esse feiticeiro tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas que foram enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos. As mães são particularmente suspeitas de amaldiçoarem suas crianças, enquanto ensinam a elas os ritos corporais secretos. A contra-magia do feiticeiro "escutador" é singular por sua ausência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "escutador" todos seus problemas e medos, começando com as primeiras dificuldades de que pode se lembrar. A memória exibida pelos Nacirema nessas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum que o paciente lamente a rejeição que sentiu ao ser desmamado, e alguns indivíduos chegam mesmo a localizar seus problemas retrocedendo aos efeitos traumáticos de seu próprio nascimento.





Para concluirmos, deve-se mencionar certas práticas que estão baseadas na estética nativa, mas que dependem da aversão generalizada ao corpo e às suas funções naturais. Há jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres, se eles são pequenos, e menores, se eles são grandes. Uma insatisfação geral com a forma dos seios é simbolizada pelo fato de que a forma ideal está virtualmente fora do espectro da variação humana. Umas poucas mulheres que sofrem de um quase inumano desenvolvimento hipermamário são tão idolatradas, que podem viver muito bem simplesmente indo de aldeia a aldeia, e permitindo aos nativos admirá-las mediante um pagamento.
Já fizemos referência ao fato de que as funções excretórias são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao domínio do secreto. As funções reprodutivas naturais são igualmente distorcidas. O intercurso sexual é tabu como tópico de conversa, e programado enquanto ato. Esforços são feitos para evitar a gravidez por meio do uso de materiais mágicos, ou pela limitação do intercurso a certas fases da lua. A concepção é realmente muito pouco freqüente. Quando grávidas, as mulheres se vestem de forma a ocultar seu estado. O parto ocorre em segredo, sem amigos ou parentes para assistir, e a maioria das mulheres não amamenta seus bebês.
Nossa descrição da vida ritual dos Nacirema certamente mostrou que eles são um povo obcecado pela magia. É difícil compreender como eles conseguiram sobreviver por tanto tempo debaixo dos pesados fardos que eles mesmos se impuseram. Mas mesmo costumes tão exóticos quanto esses ganham seu verdadeiro sentido quando vistos a partir da perspectiva dada por Malinowski, quando escreveu (1948:70):
"Olhando de cima de longe, de nossos lugares seguros e elevados da civilização desenvolvida, é fácil ver toda a rudeza e irrelevancia da magia. Mas sem seu poder e sua orientação, o homem primitivo não poderia ter superado suas dificuldades práticas como o fez, nem poderia o homem ter avançado até os mais altos estágios da civilização."

REFERÊNCIAS CITADAS

LINTON, RALPH 1936 The Study of Man. NewYork, D. Appleton-Century Co.
MALINOWSKI, BRONISLAW 1948 Magic, Science, and Religion. Glencoe, The Free Press
MURDOCK, GEORGE P. 1949 Social Structure. New Y ork, The Macmillan Co.

1 Publicação original: “Body ritual among the Nacirema”, American Anthropologist, Vol. 58, n° 3
(1956). p. 503-507.
2 University of Michigan, professor.

1 comentários:

Matheus Mello disse...

É um ótimo texto para ativar o relativismo cultural para nós mesmos, ainda que não sejamos "ianques" (americanos).
Li ele no meu primeiro período de Ciências Sociais e achei bom reencontrá-lo.